Cinema

Cormac McCarthy. A estrada para Hollywood - vídeo

por Bruno Vieira Amaral, Publicado em 06 de Janeiro de 2010   
Estreia amanhã mais um filme com origem na obra do escritor norte-americano
Durante anos, Cormac McCarthy não deu entrevistas e pouco ou nada se sabia sobre a sua vida privada. A exemplo de outros eremitas das letras americanas, como J. D. Salinger ou Thomas Pynchon, McCarthy recusou sempre entrar no circo mediático das celebridades. Por isso, quando, em 2007, aceitou ser entrevistado por Oprah Winfrey, o equivalente a vermos Herberto Hélder no Programa da Júlia, o mundo estava preparado para uma aberração. Era a primeira entrevista televisiva concedida por McCarthy, mas quem esperava um neurótico cheio de tiques ou um homem das cavernas fotossensível teve uma desilusão. Suavemente reclinado numa poltrona, McCarthy mostrou ser um entrevistado afável e tranquilo. Para além da escrita, não revelou outros hábitos esquisitos. Confessou que, antes dos prémios literários e do consequente aumento das vendas, passara por grandes dificuldades económicas. Mas, quando falou com Oprah, esses tempos já tinham ficado para trás.

Fama A entrevista decorreu poucos meses antes da estreia do filme "Este País não é para Velhos", dos irmãos Coen, baseado no romance homónimo de McCarthy. O filme viria a conquistar quatro Óscares, incluindo o de melhor filme, e o outrora recluso McCarthy assistiu à cerimónia e ficou quase tão famoso como o penteado de Javier Bardem. Não era a primeira incursão de Hollywood no universo do romancista, mas foi a mais bem sucedida. Em 2000, Billy Bob Thornton dirigira a adaptação de "All the Pretty Horses" ("Espírito Selvagem") mas nem as presenças de Matt Damon e de Penélope Cruz evitaram o naufrágio do filme e o mundo do cinema encostou McCarthy às prateleiras. Hollywood tolera eremitas (Greta Garbo, Howard Hughes) mas detesta quem lhe dá prejuízo. Com o sucesso do filme dos Coen, os livros de McCarthy voltaram à linha de montagem da fábrica dos sonhos. John Hillcoat lançou-se na adaptação de "A Estrada", com Viggo Mortensen no papel principal, e a estreia de "Meridiano de Sangue", realizado por Todd Field, está prevista para 2011.

Hollywood Com McCarthy transformado no escritor-fétiche de Hollywood a questão impõe-se: quem é que fica a ganhar com a relação? McCarthy é um dos maiores romancistas americanos e os filmes baseados nas suas obras beneficiam desse prestígio. Mas por muito que os produtores sejam sensíveis aos méritos literários de um escritor, estão compreensivelmente mais interessados nas receitas. E McCarthy não é Dan Brown (não se deixem enganar por um livrinho simpático que circula por aí com o nome de "O Código da Estrada"). Os seus livros não são uma garantia de mega-sucesso cinematográfico. Sobre qualquer filme que adapte uma obra-prima literária pesam também as expectativas. Se o filme for bom, elogia-se a fonte. Se for mau, diz-se que não fez justiça ao livro e que o autor, no caso de estar morto, deve estar às voltas no túmulo. McCarthy está vivo e há-de agradecer a Hollywood os direitos pagos, a publicidade gratuita a nível mundial e as capas especiais com imagens dos filmes. E a Hollywood não hão-de faltar sequelas de vampiros e de feiticeiros para compensar eventuais perdas.


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