Futebol Internacional
Sim, o Pai Natal existe e isso dá-lhe cá um gozo
por Rui Tovar, Publicado em 26 de Dezembro de 2009
Na Lapónia, há uma equipa chamada FC Santa Claus e uma selecção não reconhecida pela FIFA que quer jogar com Pedersen (Blackburn) e Rushfeldt (ex-Benfica)
O bacalhau é da Noruega. E o Pai Natal também. Nasceu em 1978, em Rovaniemi, capital da Lapónia, e tem 31 anos. Em vez de descer pela chaminé, é um senhor (clube) que tenta subir de divisão, sem nunca o conseguir, razão pela qual ainda se mantém na quarta divisão finlandesa. No plantel não tem renas, mas sim 21 finlandeses e um brasileiro, Rafael, que joga com camisolas e calções brancos e meias pretas. O treinador é Matti Hiukka, nascido e criado em Rovaniemi, logo "sami", condição que, enquanto jogador, lhe possibilitou jogar por duas selecções, a da Finlândia e a da Lapónia. Lá, onde o bacalhau é da Noruega, é assim. E é nessa situação que se encontram Pedersen, extremo do Blackburn, e Rushfeldt, avançado do Tromsö, com passagem caricata pelo Benfica (apresentado e despachado por Vale e Azevedo, em Agosto de 1999).
Sempre que o Natal se aproxima, a selecção da Lapónia mexe com as pessoas (com o bacalhau, eventualmente, também), ainda para mais em vésperas de Mundial. Sim, o de 2010. Não, não é o da África do Sul. É o da ilha de Gozo, em Malta, que recebe a quarta edição do Mundial VIVA, um torneio para as nações excluídas pela FIFA, como Lapónia, Camarões do Sul, Chipre do Norte, Monaco, Occitânia, Gronelândia, Iraque Curdistão, Tibete, Zanzibar, Padania, Provença, entre outros ilustres concorrentes. Ora, a Lapónia, na qualidade de campeã mundial em 2006 e sabendo de antemão que a Noruega não se qualificou para o Mundial na África do Sul, já convidou Pedersen e Rushfeldt para competirem no Verão. Os dois nasceram em Vadso, território lapónio ("sami", portanto), e sonham em vestir qualquer dia a camisola da sua (outra) selecção.
"É uma história que ouvimos desde pequenos", defende ao i o tal ex-benfiquista Rushfeldt, agora com 37 anos. "Os nossos avós e pais tratam-nos por sami, não por noruegueses. Somos um país diferente da Noruega, mas pertencemos à Noruega, embora o nosso território também se extenda à Suécia e à Rússia. Gostaríamos de ser uma selecção reconhecida pela FIFA mas não somos. Por isso, optamos pela Noruega, que nos oferece outras condições. É a nossa fuga óbvia", justifica. "Sempre pensei em representar a Lapónia no final da minha carreira e ainda o quero fazer. Curiosamente, não sou o único a pensar assim." E é verdade. Rushfeldt tem a companhia de um nome sonante do futebol inglês: Pedersen. "Ei, eu já disse que não sou Pedersen. Nem Morten Gamst. Na Noruega, tratam-me por Gamst. É o nome da minha mãe", explica o extremo do Blackburn. Pronto, pronto, já está rectificado.
Em Inglaterra, onde joga desde 2004, ele é conhecido como o Beckham da Noruega. E da Lapónia. Em casa, é a segunda personalidade mais famosa do(s) país(es). "Um jornal de Oslo fez um inquérito sobre os mais famosos e ganhei. Ou melhor, fiquei em segundo lugar, atrás de um político qualquer, mas ganhei ao Rei [Harald V]. Ganhei ao Rei", repete Gamst, que não quer ainda fazer xeque-mate na selecção da Noruega. "Ainda tenho 27 anos e há tempo para tudo. Quando pendurar as chuteiras ou quando o seleccionador me disser na cara que já não conta comigo, aí inscrevo-me logo na selecção da Lapónia. Isso vai dar-me cá um gozo." A nós também Pedersen. Perdão, Gamst. É Natal e ninguém leva a mal.
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