Fair Play

Porque é Natal. Dez casos de fair play que marcaram a história do desporto

por Mariana Pinheiro, Publicado em 24 de Dezembro de 2009   
A época é festiva e a consciência fica alerta. Olhamos para o outro, com outros olhos. Os de ver
Carlos Tevez, com a camisola do Man.City, acena aos adeptos do West Ham

Estamos mais melosos, é um facto. A quadra natalícia assim o pede. Reunimos seis histórias de futebol, uma de golfe, uma de ténis e duas de atletismo para assinalar a data, e para que, descontraidamente, as possa ler entre o desembrulhar dos presentes ou, simplesmente, enquanto come uma rabanada.

1. Leicester vs. Nottingham Forest Na Carling Cup em 2007, o Leicester perdia com o Nottingham Forest por 1-0. Durante o intervalo, Clive Clarke, central do Leicester, desmaiou no balneário. Como a vida do futebolista estava em perigo, o jogo foi interrompido e adiado por três semanas. Na repetição, logo no pontapé de saída, toda a equipa do Leicester, de forma a agradecer o gesto, abriu espaço para que o guarda-redes adversário, Paul Smith, levasse a bola até ao meio-campo e restabelecesse a vantagem que o Nottingham Forest tinha no jogo original. A boa acção correu bem e o Leicester acabou por ganhar a partida.

2. Paolo di Canio É um homem com a sua quota-parte de rixas e agressões dentro das quatro linhas mas, durante um encontro da Premier League em 2000, protagonizou um dos momentos mais brilhantes da carreira. Uma colisão deixou Paul Gerrard, o guarda-redes do Everton, lesionado. Trevor Sinclair do West Ham, clube pelo qual Di Canio também alinhava, cruzou a bola para que este marcasse golo. A baliza estava aberta. Mas ao invés do que seria de esperar, o internacional italiano pe- gou na bola e fez sinal ao árbitro de que Gerrard precisava de ajuda. O estádio em peso levantou-se para o aplaudir, sem distinção de adeptos e adversários.

3. Robbie Fowler Era um daqueles futebolistas sempre prontos para a confusão, mas o desportivismo durante um jogo contra o Arsenal, em Dezembro de 1996, valeu-lhe o Prémio Fair Play da UEFA. O árbitro assinalou grande penalidade após falta do guarda-redes adversário, David Seaman, por ter derrubado Fowler. Num ápice, o avançado do Liverpool levantou-se, disse ao juiz que a culpa não tinha sido de Seaman e pediu que a falta fosse retirada. Inflexível, o árbitro assinalou penálti. Fowler acedeu mas chutou a bola levemente para que o guarda-redes do Arsenal pudesse defender. As boas acções compensam, o Liverpool ganhou o jogo.

4. Carlos Tevez As comemorações de golos são, por vezes, tão exageradas que caem mal aos adeptos dos clubes adversários. Não é o caso de Carlos Tevez. O futebolista argentino marcou dois dos três golos da noite ao serviço do Manchester City. Mas, em vez de comemorar efusivamente junto da claque do clube pelo qual alinha esta época, dirigiu--se aos antigos adeptos do West Ham, que o adoraram durante os tempos em que vestiu a camisola do clube e, como sinal de respeito, levantou a mão num pedido de desculpas.

5. De Rossi Em Março de 2006, o futebolista italiano foi elogiado pelo árbitro Mauro Bergonzi pelo seu fair play durante o encontro Roma-Messina. A Roma perdia 1-0 e De Rossi marcou um golo com a mão. O árbitro não viu e validou o golo do empate. Contudo, o futebolista apressou-se a dizer o que tinha acontecido. Mesmo assim, o jogo terminou com a Roma como vencedora (2-1).

6. Kenedy Este episódio aconteceu em Portugal, mais precisamente durante a partida que reuniu Marítimo e Varzim. Ao minuto 62, Kenedy tinha a baliza aberta para marcar golo, mas optou por não o fazer. Descontraído, deu um toque na bola e fez com que saísse de campo. O espanto foi geral. Explicação? Segundos antes o guarda-redes e o defesa-central do Varzim chocaram e ficaram prostrados no relvado. Muitos adeptos reclamaram a entrega do prémio fair play ao jogador do Marítimo pela sua atitude com os colegas.

7. Jack Nicklaus É conhecido por ser um tipo simpático e afável, perito em actos de solidariedade e companheirismo com os adversários. Durante a final da Ryder Cup 1969, o golfista norte-americano que estava em pé de igualdade com Tony Jacklin, fez um putt, recebeu uma salva de palmas e relaxado retirou a bola do buraco. Mas sem querer levantou a marca de Jacklin, que estava a 61 centímetros do alvo, mas apressou-se a considerá-lo também vencedor: "Não acredito que tivesses falhado esta." E o prémio foi, pela primeira vez na história do torneio, repartido igualmente entre os dois golfistas, que foram aclamados vencedores.

8. Andy Roddick Masters de Roma 2005. O tenista norte-americano faz um triplo match-point no último set e o adversário, Fernando Verdasco, faz dupla falta e perde o jogo. É então que Andy Roddick chama a atenção dos fiscais de linha e assegura que o serviço tinha sido dentro do court. Verdasco ganhou o ponto, virou o jogo e venceu. Roddick levou um abraço no final.

9. Shawn Crawford Vivia com um peso na consciência. O atleta norte-americano terminou os 200 metros em quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Churandy Martina e Wallace Spearmon terminaram em segundo e terceiro, respectivamente. Mas acabaram desqualificados por terem pisado e corrido fora das linhas. A medalha de prata foi então entregue a Crawford. "Nunca esperei terminar em quarto e levar uma medalha de prata para casa. Nunca senti que fosse minha por direito", contou o velocista. Crawford levou então a caixa com a medalha para o hotel em Zurique onde Churandy Martina estava hospedado. Pediu na recepção para que entregassem o embrulho com uma nota a acompanhar: "Correste para uma medalha de prata, por isso, merece-la mais do que eu." O gesto correu mundo. A medalha está com Martina que ficou comovido com a acção do colega. O segundo lugar, contudo, ficará para sempre na história com o nome de Crawford.

10. Maratona de Londres A primeira maratona londrina aconteceu em 1981 e foi marcada por um episódio invulgar. Marie Dominique de Groot e David Gaiman terminaram a prova sete horas depois da partida. Exaustos, cruzaram a meta de mãos dadas, ajudando-se mutuamente. Sob um coro de aplausos.

 

Com Filipe Duarte Santos



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