Futebol
Braga e Benfica aceleram, FC Porto abranda, Sporting pára
por Bruno Roseiro, Publicado em 22 de Dezembro de 2009
Há uma cor dominante na Liga. No campo e nos túneis, com o sangue a ferver no Benfica-FC Porto
O FC Porto continua como um dos favoritos à conquista do título mas há um duplo semáforo de sinal encarnado a travar a habitual caminhada de ouro sobre azul rumo ao primeiro lugar: a afirmação Sp. Braga e a confirmação Benfica, vencedores do campeonato de Inverno, que vão passar o Natal com mais quatro pontos do que os tetracampeões nacionais. E assim se fecha o trio de candidatos ao triunfo na Liga portuguesa, na qual a surpresa entronca numa mera troca de nome: o Sporting de Portugal desceu um degrau e luta agora pelo primeiro lugar a seguir aos grandes; o Sp. de Braga subiu um posto e arrisca suceder a Belenenses e Boavista como o próximo não grande a sagrar-se campeão.
MANCHA NO TÚNEL Do sinal encarnado para a bolinha vermelha no canto da imagem, acentuou-se uma regra que já surgira no passado: os grandes encontros nunca terminam com o último apito do árbitro e os túneis vão somando manchas no futebol português. Cardozo e Leone abriram hostilidades na recepção dos arsenalistas aos lisboetas (acabaram ambos expulsos logo no intervalo. Já se tinha visto um autêntico circo de feras digno de Xutos & Pontapés ainda no relvado), em Outubro. Sucedeu uma semana depois de Ruben Micael - a grande referência da prova extra primeiros classificados, que conseguiu ainda marcar sete golos na Liga Europa - ter alertado a comunicação social "para as coisas estranhas que se passavam nos túneis", sobretudo no Estádio da Luz (que motivaram, no último ano, castigos a Nuno Gomes, Rui Costa e Paulo Gonçalves após um Benfica-Nacional). Para fechar o 14.º capítulo em beleza, foi a dupla Hulk e Sapunaru a ser expulsa após o final do clássico por alegada agressão a um segurança do estádio. Mais uma vez, os intervenientes disseram que não viram nada e está tudo dependente das câmaras de vigilância internas. As mesmas que, no caso de Cardozo, não conseguiram mostrar qualquer agressão do paraguaio.
O QUE SE MANTEVE O Nacional mostra que a última campanha não foi obra do acaso e conjuntos como V. Guimarães ou Marítimo assumem-se como candidatos a lugares europeus; em contrapartida, Académica, V. Setúbal ou Belenenses lutam para não descer de divisão. Até aqui tudo mais ou menos dentro da normalidade. Mas o maior ponto de contacto com as épocas transactas é mesmo a arbitragem - todos reclamam, alguns têm razão mas poucos (ou nenhuns) conseguem inverter a tendência em voga.
Do pouco tempo útil de jogo (o último Benfica-FC Porto teve 37 minutos em 90 possíveis) ao excesso de cartões (o Olhanense-Benfica teve 13, sendo que nenhum encontro terminou sem haver pelo menos um), passando pelo crescente número de paragens (o Belenenses-Naval, partida com menos paragens até ao momento, teve 72, mas o Rio Ave-Sp. Braga foi interrompido em 176 ocasiões), os juízes da Liga profissional continuam a estar na mira de todos os responsáveis. Até nas nomeações, como se viu com a chamada de Duarte Gomes (com quem o Sporting tem processos ainda a decorrer) para o clássico dos leões no Dragão.
Mas algo mudou - o tom. E a forma de criticar: nesta altura, fala-se de ameaças telefónicas a alguns árbitros que dirigiram encontros de candidatos ao título. A Polícia Judiciária estará a investigar o teor das chamadas e mensagens escritas mas, como têm número inglês, é coisa para demorar algum tempo.
O QUE MUDOU O Leixões passou dos primeiros para os últimos lugares da classificação - no plano oposto ao Rio Ave -, o P. Ferreira desceu da metade inicial para posições mais desconfortáveis mas o Sporting tem sido a surpresa (pela negativa) da prova: cinco vitórias em 14 jogos (apenas duas por mais de um golo de diferença) e um futebol cinzento e pouco atractivo. José Eduardo Bettencourt, o líder dos lisboetas, continua a afirmar que a segunda volta será melhor porque os leões vão investir no mercado. Mas ficará sempre a pergunta: e se esse esforço tivesse sido feito no Verão? Uma coisa é certa - Paulo Bento, com diferentes soluções, poderia estar ainda no comando técnico. E não teriam existido aqueles quatro meses a mais em Alvalade.
A saída de Alex Ferguson da formação verde-e-branca foi só a penúltima gota num novo oceano que se abriu no campeonato: a despedida de treinadores. Excepção feita ao trio da frente e aos aflitos Leixões e Olhanense, todas as equipas já mudaram de técnico (João Carlos Pereira, do Belenenses, foi a 11.a vítima da expressão que todos usam mas poucos ou nenhuns sabem onde nasceu: a chicotada psicológica). E até José Mota e Jorge Costa começam a ficar pressionados pela falta de resultados. Mas, no meio do entra e sai, ressalve-se a constante aposta em nomes portugueses.
FIGURAS Keirrison, avançado emprestado pelo Barcelona, ainda não se mostrou no Benfica mas a verdade é que as águias souberam investir e Javi García, Ramires ou Saviola mostraram que o caro às vezes acaba por sair barato. Ao contrário do FC Porto, que teve olho de Falcao para suprir a saída de Lisandro, genica para colmatar a venda de Cissokho com a entrada de Alvaro Pereira (ambos desviados à última da hora do grande rival de Lisboa) mas ineficácia para disfarçar a ausência de El Comandante Lucho González. E continua a sofrer com isso.
Em planos opostos situam-se os dois Sportings, num duelo de "Kramer vs. Kramer:" o de Braga, sem grandes meios para arriscar, conseguiu a cedência do imprescindível Hugo Viana e reforçou-se com segundas linhas de melhor qualidade (à excepção de Possebon, emprestado pelo Manchester United); o de Lisboa, que já chegara ao fim de um ciclo, optou pelo pouco e barato (Angulo, Caicedo ou André Marques). Isso saiu-lhe mal. E caro.
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