Primeiro plano

Tempo de escolhas

por João Rodrigues, Publicado em 11 de Maio de 2009   
Há um ditado que afirma não se poder estar de bem, ao mesmo tempo, com Deus e com o diabo. Passa-se o mesmo na economia política
A UE deve voltar a limitar o alcance das forças de mercado
Não podemos ter tudo na vida. Temos de fazer escolhas. Estas duas formulações são muito usadas pela maioria dos economistas. E, às vezes, até podem servir para clarificar escolhas e constrangimentos sociais reais.

É o caso do chamado trilema da economia política internacional, formulado por Dani Rodrik, um dos mais interessantes economistas contemporâneos. Estamos confrontados com três elementos e só é possível compatibilizar pares, o que significa que temos sempre de sacrificar um deles: escolhas democráticas com impactos reais, Estados soberanos e mercado global. Temos de escolher um par. Esquemático, mas pode ajudar a clarificar as nossas escolhas.

Se queremos um mundo de Estados soberanos onde as escolhas democráticas contem na regulação das economias, então temos de atenuar o alcance das forças do mercado global. Foi a escolha que emergiu a seguir à II Guerra Mundial. Controlo de capitais e uma integração comercial gerida e temperada com mecanismos de protecção comercial. O resultado não foi mau.

Se queremos um mundo de Estados soberanos e de mercados sem freios, então temos de nos conformar com a crescente irrelevância da democracia. Foi a escolha, mais ou menos explícita, do neoliberalismo que, não nos esqueçamos, teve no Chile de Pinochet o seu primeiro laboratório. A crise actual mostra os limites de um projecto utópico e limitador da democracia que dominou as soluções de política desde que, a partir do final dos anos setenta, se começou a dar rédea solta aos mercados, sobretudo aos mercados financeiros, permitindo que os seus agentes acabassem por deter mais poder do que os cidadãos. Se queremos manter as forças do mercado global, mas achamos que estas precisam de ser democraticamente geridas, então teremos de caminhar para um governo mundial e superar progressivamente as soberanias nacionais. É a escolha para que muitos agora apontam. Parece-me uma escolha pouco realista. Todos sabemos que os Estados, sobretudo os mais fortes, só a custo é que prescindem da sua soberania e geralmente as soluções encontradas não costumam primar pela robustez democrática.

Precisamos então de forjar os arranjos que nos aproximem, em novas circunstâncias, da primeira situação. Aqui não há provavelmente muito que inventar. Estados ou agrupamentos de Estados, como a UE, têm apenas de voltar a limitar o alcance das forças de mercado e temperar a coisa com acordos globais em algumas áreas. A democracia sairá robustecida e a economia, a julgar pela evidência histórica disponível, também.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas


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