Televisão

Natal dos Hospitais. Fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença - vídeo

por Luís Leal Miranda, Publicado em 19 de Dezembro de 2009   
É o presépio da RTP há mais de 50 anos e o único espectáculo que ninguém quer ver a partir da plateia. Fomos lá aviar a receita. Do sucesso
Na plateia, os lugares da frente são ocupados cedo pelos doentes de cadeira de rodas
Aproxima-se o Natal. Vem aí o bolo rei, as filhoses, o "ET" na televisão e os primos do Canadá. Mas antes disso tudo, veio o "Natal dos Hospitais". Para os mais velhos, o programa ainda é um acontecimento televisivo especial. Para as gerações mais novas é apenas uma recordação kitsch de um passado que insiste em sobreviver. Para os doentes na plateia é um paliativo à base de divertimentos genéricos - como os medicamentos.

O i quis conhecer a mais antiga maratona televisiva de Portugal e não teve outro remédio: quinta-feira passámos o dia em Alcoitão, onde se realizou parte da edição deste ano.

Princípio activo O "Natal dos Hospitais" está no ar há 52 anos. E há mais de meio século que é assim: um programa de variedades que dura um dia inteiro; 12 horas passadas no canal do Estado com canções, entrevistas, momentos de humor e magia. É a sala de estar da RTP e lugar onde, se explodisse uma bomba (bater três vezes na madeira), se acabava de vez com a música pimba. Este ano passaram pelos palcos do Hospital de São João, no Porto, e Centro de Reabilitação de Alcoitão, em Cascais, 61 intérpretes daquilo que se pode educadamente chamar "canção ligeira portuguesa". O que se viu pela televisão foi em tudo semelhante ao que se ouviu em 1944, na rádio. O "Natal dos Hospitais" foi criado nesse ano pelo "Diário de Notícias" como acção de solidariedade para com aqueles que passam a quadra longe da família.

O ano passado essa mesma fórmula teve 42,8% de share, valor que se manteve constante nos últimos cinco anos. "É um programa que aproxima as pessoas e marca a agenda", descreve José Fragoso, director de programas da RTP, ao pé das cortinas de veludo gasto do auditório. E por falar em gasto: "Não acho que seja um formato antiquado, pelo contrário. É um talk-show de raiz, com momentos de humor e música. É super moderno", confia o director.

Ansiolíticos Na Marechal Gomes da Costa começa a contagem decrescente. A partir da sede da RTP conta-se desde o segundo 30 e por aí abaixo até ao zero, altura em que o genérico do "Natal dos Hospitais" aparece pela primeira vez nas televisões portuguesas. O programa vai ficar acampado na grelha do canal durante as próximas 12 horas, sempre com José Poiares, coordenador da edição, aos comandos. "Temos pouco público, não façam planos abertos", ordena a partir de uma régie improvisada no auditório. Os Pequenos Cantores da Maia já acabaram de cantar "Aquela tua Estrela" quando Poiares manda corrigir a posição do logótipo do programa: "Está em cima da cara dos apresentadores, vejam lá isso."

Analgésicos Quando Fernando e Rosário encontram lugar na sala, o Padre Borga ainda canta "Quero a Paz" no ecrã gigante que transmite a festa do Porto. Chegaram ao final da manhã para ver o espectáculo, cumprindo um hábito que começou há cinco anos. Nessa altura, Fernando estava internado depois de um acidente de carro e Rosário empurrou a cadeira de rodas até aos lugares da frente do auditório do Centro de Reabilitação. "Foi a maneira de termos um Natal mais perto do normal. Numa altura tão complicada, ajudou a diminuir a dor", lembra a mulher que este ano trouxe o marido pelo braço. "Curei-me mas ganhei o hábito de cá vir. É uma maneira de rever os que me ajudaram e ver um bom espectáculo. Os bilhetes nunca esgotam."

Sim, o "Natal dos Hospitais" é uma festa. Sim, tem a maior concentração de artistas portugueses, actores de novela e apresentadores de TV por metro quadrado. Há comes e bebes. Mas se perguntássemos às pessoas que estão sentadas ou deitadas a ver o espectáculo - não é uma posição que escolheram por conforto, mas uma condição definida por um problema de saúde -, ninguém quereria estar ali, se pudesse escolher.

Da plateia assistimos a um espectáculo de variedades onde cada artista faz uma visita de médico: deixam o carro à porta do hospital, quatro piscas ligados, e correm pelos bastidores com o penteado trazido de casa. Retocam a maquilhagem, cantam, voltam para casa. Algum do glamour do mundo do espectáculo passa por ali mas não deixa rasto. Apenas alguns autógrafos: "Já tenho Marco Paulo mas quero mesmo é Tony Carreira", diz Dulce, estacionada junto aos camarins. "É jornalista?", pergunta timidamente, "queria mandar beijinhos para a Alemanha".

Os projectores junto ao palco são substituídos por luzes brancas fluorescentes assim que passamos para os corredores - largos, ladeados por corrimãos. Em Alcoitão, todas as casas de banho são casas de banho para deficientes.

Antidepressivos António Carvalho prefere Alcoitão ao Alvaláxia. Isto é, prefere animar crianças neste tipo de eventos do que aturar miúdos mimados de centro comercial. É o Pai Natal do "Natal dos Hospitais" e o centro das atenções de todos os miúdos em Alcoitão. Carvalho, um técnico de vendas reformado que a partir de 26 de Dezembro faz a barba para se transformar no palhaço Batatão, comove-se com os garotos - "é a festa mais melancólica" - mas lamenta a brevidade destes eventos. "Queria que o Natal durasse mais tempo para que as pessoas não se sentissem sozinhas. Todo o ano também não era preciso, mas uma vez por mês já era bom", desabafa.

Há outros responsáveis pela distribuição de sorrisos, mas estes trabalham à distância. Joana Marques é argumentista das Produções Fictícias e uma das autoras dos pedaços de humor que durante o dia animaram doentes e telespectadores. "Pareceu-nos importante que os sketches fossem filmados em cenários do próprio hospital, porque esse é, infelizmente, o contexto em que os destinatários dos mesmos vivem. A ideia foi trazer descontracção e ironia para um cenário muitas vezes diabolizado, e temido por todos nós", explica Joana. Sobre a existência ou não de temas tabu - uma unidade hospitalar não é sítio para pôr o dedo na ferida -, a argumentista é categórica: "À partida não seria nunca minha intenção escrever sketches em torno de doenças crónicas ou situações clínicas complicadas, portanto não precisei propriamente de auto-controlo e disciplina férrea para não enveredar por aí."

Alucinogéneos Há pela plateia uns quantos executivos, responsáveis de gestão hospitalar, que vêm saudar a iniciativa, repetindo até à exaustão a palavra iniciativa. O clero também está representado. Logo às nove da manhã D. Manuel Clemente discute com João Baião a "dimensão horizontal do homem" e repete a palavra "vivência". Mas nada nos preparou para encontrar Simara (cartomante, cantora, presença regular no Carnaval de Sines) nos bastidores com um homem vestido de gato das botas e um palhaço. "Uma vassoura! Quem me traz uma vassoura que eu esqueci de trazer." Explicação: Simara tem agora um projecto musical para crianças: Simara Show.

Antiácidos São quase seis da tarde, Maria Cavaco Silva acaba de enviar "abraços natalícios" a "todos os portugueses e portuguesas" e o músico invisual Sebastião Antunes começa a cantar "Esquina". Enquanto isso, Emanuel, o homem que transformou a música popular portuguesa em pimba, prova as empadas do catering da festa. E as bananas, e as sandes triangulares. A mesa da comida do "Natal dos Hospitais" parece a lição nº 100 de uma turma do secundário (falta a gelatina), os camarins são uma espécie de balneários em dia de torneio interescolar e à entrada do edifício fuma-se como numa sala de professores - antigamente, oh nostalgia. Está para chegar o rufia da turma.

"Dá-me dessa Snappy que tens aí em baixo", exclama Toy depois de se queixar de algumas falhas de organização - "isto aqui é só águas e sumos, parece um convento". O empregado ajeita o laço antes de se curvar para debaixo da mesa e mais tarde emergir com uma garrafa de tinto. Toy fica satisfeito com o serviço e ignora o drama que está a acontecer na parte dos salgados: croquetes sem sal, rissóis fritos de manhã que foram aquecidos no microondas e a falta de alternativas ao queijo flamengo.

Por esta altura os camarins juntam a artilharia pesada da música portuguesa: Emanuel, Tony e Mickael Carreira. Mas mais importante que isso, as suas bailarinas. Mulheres que parecem ter nascido de saltos altos calçados deixaram naquelas salas uma marca muito maior do que a de batom nos copos de plástico - "Olhe, era uma Coca-Cola light".

Na desesperantemente longa ópera de Wagner, "O Anel dos Nibelungos", o final era marcado pelo solo da soprano, normalmente uma senhora obesa com um capacete com asas. É daí que vem a expressão "só acaba quando a senhora gorda cantar". O "Natal dos Hospitais" é um épico semelhante, igualmente ruidoso, mas em playback. E no final não há senhoras anafadas a cantar mas sim dezenas de crianças vestidas de azul. São 19h56 quando se começa a ouvir "A Todos Um Bom Natal", canção que nos leva até ao passado: que pode ser o ano passado ou a década passada, dada a frequência com que este tema (e só este) é cantado pelos garotos. Chovem confetis dourados. Não mude de canal, vêm aí as notícias.


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