Na sala de chá da Confeitaria Nacional, em Lisboa, três pessoas discutem pastelaria:
- "Bolo rei, o que é isso? Um bolo com restos de frutas, tudo ao molhe sem jeito nenhum", diz o tipo de barba enquanto põe açúcar no chá.
- "Então e o pudim abade de Priscos, que é feito com a gordura do presunto", respondem do outro lado.
- "Não é presunto, é bacon", atreve-se uma terceira pessoa.
- "Ah é bacon!? Como é que é bacon se o pudim é uma antiga receita de padres, gente que nem sabia falar inglês?"
Parece que estamos num episódio do talk-show de Bruno Aleixo, personagem criada pelo GANA (Guionistas e Argumentistas Não-Alinhados) em 2007, protagonista de um programa de televisão de culto, "O Programa do Aleixo", e apresentador fictício da rúbrica "Aleixo FM" na Antena 3, o podcast mais ouvido em Portugal por estes dias - destronou "Tubo de Ensaio", de Bruno Nogueira e "Governo Sombra", debate com os pesos-pesados Miguel Tavares, Pedro Mexia, Carlos Vaz Marques e Ricardo Araújo Pereira.
"É um bom resultado, mas pode ser apenas tusa do mijo", desvaloriza João Moreira o homem por detrás da voz do boneco que há dois anos dá cara à expressão "chico-esperto". Falar com Moreira é o mais próximo de conversar com Bruno Aleixo - e não apenas por causa de expressões como "tusa do mijo". O sotaque, metade com raiz na Bairrada (terra do pai), outra importada do Brasil (terra da mãe), é o mesmo do boneco. As conversas entre Moreira e Pedro Santo, o Busto da série e programa de rádio, parecem-se com a ficção que começou por ser um sketch recusado. Os dois guionistas, com a ajuda de João Pombeiro - a terceira parte dos GANA que se ocupa da parte gráfica - fizeram uma série de mini-episódios em que Bruno Aleixo, um ewok da Guerra das Estrelas falecido, deixa uma cassete com conselhos para a vida a Fernando Alvim. A ideia era encaixar estes momentos (como dizê-lo?) bizarros no programa "Boa Noite Alvim", mas o apresentador achou que aquele não era bem o seu tom. Os vídeos acabaram por ir parar à net e o boca-a-boca (ou mail-a-mail) levou-os até aos ouvidos de Nuno Markl - que com propriedade se intitula "o Júlio Isidro" dos GANA - e, mais tarde, à SIC Radical. Pedro Santo conta que chegou a receber mails de amigos a dizer "Vais gostar disto!" e ao abrir verificava que era a sua criação.
Bruno Aleixo é aquilo que hoje em dia se chama um fenómeno viral (produto de nicho que se torna fenómeno global sem recurso aos media tradicionais) e que antigamente se chamava fenómeno de culto. Mas quanto começaram, Moreira, Santo e Pombeiro não sabiam sequer o significado da primeira expressão. "Limitámo-nos a usar a internet, o recurso que conhecíamos melhor e estava ao nosso alcance. Tratámos os nossos personagens como uma pessoa, criámos-lhes perfis nas redes sociais e interagimos com os fãs", lembram Moreira e Santo. Hoje há cadeiras de marketing dedicadas a isso.
OS PRIMEIROS TEMPOS
Santo pede uma babá, bolo de massa levedada encharcada em calda de rum e recheado de chantilly, que debica enquanto Moreira explica as suas até agora curtas carreiras no humor: "Eu e este cavalheiro aqui [Santo e Moreira tratam-se por você] queríamos mudar de emprego. Eu estava numa agência de publicidade, era redactor e Santo fazia umas empreitadas esporádicas em investigação sociológica". Eram, resume Moreira, "duas pessoas desocupadas que queriam fazer humor".
E têm conseguido, a julgar pelo sucesso do podcast, site, programa de televisão e vídeos no YouTube. O humor de Aleixo está, no entanto, longe de ser consensual. Há quem odeie aqueles diálogos mundanos sem quaisquer referências sexuais, políticas ou escatológicas (para enumerar apenas três das fórmulas para fazer rir) com o mesmo entusiasmo de quem adora. O humor dos GANA faz cócegas em sítios onde muita gente não sente nada. "Tem a ver com as experiências da nossa infância. Uma mistura de miúdo que jogou aos primeiros jogos de computador mas que também subia às árvores. E depois há referências à cultura pop que nem toda a gente apanha", explica.
"Aleixo FM" pode ser ouvido todos os dias úteis, às 8h20 e 9h20 na Antena 3, ou em podcast. O pudim abade Priscos é feito com toucinho, e não com presunto ou bacon.
Confira em baixo um dos vídeos que lançou Bruno Aleixo e os GANA.




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