Santo André

Responsáveis por fraude de 700 mil euros mantêm farmácia aberta

por Rute Araújo, Publicado em 15 de Dezembro de 2009   
Durante quatro anos, casal de Vila Nova de Santo André falsificou centenas de receitas, conclui PJ de Setúbal
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Centenas de receitas foram falsificadas
"É uma das mais gigantescas fraudes detectadas e cometidas nos últimos anos contra o Serviço Nacional de Saúde", diz a Polícia Judiciária (PJ). Durante quatro anos, um casal proprietário e responsável técnico de uma farmácia em Vila Nova de Santo André (Santiago do Cacém) falsificou receitas de medicamentos lesando o Estado em 700 mil euros. A farmácia continua aberta porque à Ordem dos Farmacêuticos não chegou qualquer denúncia contra os profissionais em causa - e o Infarmed só intervém quando está em causa um problema de saúde pública.

Contactado pelo i, o director técnico da farmácia constituído arguido apenas respondeu: "Não vou fazer qualquer comentário." A investigação da PJ de Setúbal estendeu-se por três anos. O inquérito, agora enviado para o Ministério Público deduzir acusação, tem nove volumes e dez apensos, num total de mais de 5 mil páginas. Em comunicado, a PJ refere-se ao esquema desmantelado como "uma autêntica fábrica de falsificação e contrafacção de receituário médico".

Entre 2003 e 2007, os dois arguidos acrescentaram medicamentos a receitas aviadas, usaram formulários originais em branco forjando prescrições inexistentes ou mudaram o nome dos remédios para outros mais caros. Na maioria dos casos, optavam pelos tratamentos contra o cancro ou a hepatite, comparticipados a 100%. Os elementos reunidos pela PJ mostram ainda "falsificação de assinaturas de médicos e utentes". "O modo de actuar tinha contornos múltiplos", explica o inspector Júlio Barbas. Foram encontradas receitas em nome de um único utente com 144 caixas de um medicamento, o que corresponde a 1728 doses de injecções, "um exagero tão grande que seriam necessários dez anos para tomar tudo isto", exemplifica.

Numa busca domiciliária feita há dois anos, um dos arguidos foi detido e presente a juiz, mas este entendeu aplicar-lhe a medida de coação mais leve: termo de identidade e residência. O profissional, que detém outros negócios em Santo André, continuou até agora a trabalhar e a farmácia mantém-se aberta. De acordo com a Ordem, o farmacêutico não tem nenhum processo aberto, já que este organismo apenas actua disciplinarmente se houver denúncias ou participações. O que não aconteceu. Também o Infarmed refere que se trata de um caso de polícia e por isso só as autoridades competentes podem actuar.

O casal incorre agora numa pena de dois a oito anos por burla qualificada, estando também indiciado pelo crime de falsificação de documentos.

Este ano a PJ também já tinha investigado e enviado para o Ministério Público um processo de práticas fraudulentas com receituário médico num subsistema de saúde de uma instituição militar. Neste caso, os indícios recolhidos apontavam para uma fraude contra o Estado de meio milhão de euros.


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