"O tema do seu futuro doutoramento não é o mais importante", disse Karl Popper quando o conheci no Algarve, em 1987. Isso deixou-me um pouco surpreendido, porque eu tentava encetar uma séria discussão sobre temas de investigação. E fiquei ainda mais com o que se seguiu: "O mais importante é que vá estudar e viver em Inglaterra. Se o fizer com verdadeira curiosidade intelectual, viver e estudar em Inglaterra é mais importante do que o tema que se está a estudar".
É improvável ouvir um filósofo eminente como Karl Popper sublinhar que uma experiência inglesa é mais importante do que uma tese de doutoramento. Foi então que Popper falou pela primeira vez no "mistério inglês":
"É difícil explicar, e é por isso que é tão importante vivê-la. Nós devemos a Inglaterra a sobrevivência da democracia no século XX. Mas, antes disso, já lhe devíamos a mera credibilidade da hipótese democrática. E ao império inglês devemos a expansão dessa credibilidade pelos quatro cantos do mundo ? aquilo que Winston Churchill chamou de 'povos de língua inglesa'. É um mistério, podemos chamar-lhe o mistério inglês".
Esta conversa com Karl Popper foi determinante para o que viria a fazer nos 22 anos subsequentes. De tal maneira que não é exagero dizer que me dediquei desde então ao estudo do "mistério inglês" e que vou tentar esboçar aqui algumas das coisas que julgo ter aprendido entretanto sobre "o mistério inglês". Por amável convite do Director deste jornal, publicarei semanalmente um ensaio sobre esse mistério. Parte do que tenho a dizer foi publicado recentemente em livro sob o título "A Tradição Anglo-Americana da Liberdade: Um Olhar Europeu" (Cascais: Principia, 2008), e aguarda publicação em língua inglesa. Uma outra parte será aqui revelada aos sábados.
A interrogação de Karl Popper sobre o mistério inglês pode ser formulada de muitas maneiras. Vim a perceber que era um mistério muito conhecido, desde pelo menos o final do século XVII, sobretudo entre aqueles que admiravam o regime constitucional inglês, por contraste com o absolutismo continental, sobretudo francês e castelhano. Nessa época, o mistério inglês traduzia-se basicamente na pergunta seguinte: "porque é que a Inglaterra tem um regime monárquico, liberal e ordeiro, enquanto no continente existem sobretudo monarquias absolutas?" Essa foi a pergunta de Montesquieu, em 1748, no seu O Espírito das Leis. Depois da Revolução Francesa de 1789 - essa "doença infecciosa", como lhe chamou Edmund Burke - a pergunta manteve-se, com uma curiosa alteração: "porque é que a Inglaterra mantém um regime monárquico, liberal e ordeiro, enquanto na Europa temos agora a paixão pelo despotismo popular e republicano, no lugar antes ocupado pela paixão pelo absolutismo real?"
Álcool em estômago vazio. Esta pergunta foi reformulada por Lord Quinton, no capítulo dedicado à filosofia política, através do qual deu o seu contributo para a Oxford History of Western Philosophy. Anthony Quinton afirma aí que "o efeito da importação das doutrinas de Locke em França foi muito semelhante ao do álcool num estômago vazio." E o autor acrescenta que, em Inglaterra, os princípios de Locke "serviram para sancionar uma ampla revolução conservadora contra a inovação absolutista" (referindo-se à chamada "Gloriosa Revolução" de 1688). Em contrapartida, observa Quinton, a importação das ideias de Locke pela França conduziria ao radicalismo da revolução francesa. [A. Quinton, "Political Philosophy", Anthony Kenny (ed.), The Oxford Illustrated History of Western Philosophy, (Oxford, Oxford University Press, 1994), 327].
O milagre da Inglaterra moderna. Esta diferença, entre a revolução inglesa relutante de 1688 e a caótica revolução francesa de 1789, captou a imaginação de várias gerações de anglófilos na Europa. Em Anglomania: A European Love Affair (New York: Random House, 1998), Ian Buruma oferece uma excelente panorâmica, divertida e informativa, do impacto da tradição política inglesa sobre várias gerações de anglófilos na Europa.
Desde a Revolução Francesa de 1789, gerações sucessivas de grandes intelectuais franceses - como Benjamin Constant, Guizot, Tocqueville, Élie Halevy ou Raymond Aron - observaram a propensão da França para o eterno conflito entre revolução e contra-revolução.
Em Inglaterra, a revolução mais recente ocorrera em 1688-89, e mesmo essa apresentara-se como revolução relutante, visando restaurar as antigas liberdades constitucionais consagradas na Magna Carta de 1215. Em França, pelo contrário, a Revolução de 1789, ela própria composta de uma sucessão de episódios revolucionários e contra-revolucionários, abrira caminho a uma profunda instabilidade constitucional. Entre 1789 e 1871, em escassos 82 anos, a França teve dois golpes de estado (Bonaparte em 1799 e Louis-Napoleon Bonaparte em 1851), um consulado (1799-1804), um primeiro império (1804-1814-1815), uma restauração com duas monarquias (1814-1830), uma monarquia constitucional (com Louis-Philippe, 1830-1848), um segundo império (1852-1871), e três repúblicas (1792-99, 1848-51 e 1871).
Este contraste gritante entre a estabilidade inglesa e a instabilidade francesa levou os anglófilos ingleses a lamentar que a chamada "Pátria das Luzes" não tivesse conseguido reproduzir o chamado "milagre da Inglaterra moderna", uma frase cunhada por Élie Halevy. É importante notar, no entanto, que este milagre não residiu apenas, nem mesmo sobretudo, no facto de a Inglaterra ter sido poupada à revolução desde 1688. Como recordou a distinta historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb, "o verdadeiro "milagre da Inglaterra moderna" (a famosa expressão de Halévy) não está em ter sido poupada à revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções - industrial, económica, social, política, cultural - sem recorrer à Revolução." [Gertrude Himmelfarb, Victorian Minds: A study of intellectuals in crisis and ideologies in transition, [Chicago: Ivan R. Dee, 1995 (ed. Or: Knopf, 1968)], p.292].
Uma corrente de ouro. Creio que uma das melhores ilustrações desta versatilidade não revolucionária da cultura política inglesa reside numa passagem de Winston Churchill sobre a filosofia política de seu pai, Lord Randolph Churchill, um destacado parlamentar conservador. Disse Churchill sobre seu pai:
"[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser reconciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro [golden chain], nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa." [Winston S. Churchill, "Personal Contacts", in Thoughts and Adventures, (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 52].
Seria muito difícil encontrar uma passagem deste tipo - que combina uma visão profundamente conservadora com uma visão profundamente democrática - num actor político marcante da tradição política continental. Como observou Tocqueville, no continente europeu, os políticos conservadores tendiam a opor-se à democracia, e os defensores da democracia tendiam a opor-se aos modos de vida e às mundovisões conservadoras. Esta dicotomia fatal conduziu a Europa continental àquilo que Tocqueville designou por "conflito estéril entre Antigo Regime e Revolução". Na tradição política de língua inglesa, essa dicotomia não existiu, ou nunca foi levada a sério.
Um argumento aos sábados. Ao longo desta série de ensaios, procurarei mostrar que o "mistério inglês" não pode ser decifrado sem compreender essa "corrente de ouro" de que falava Winston Churchill. É ela que também explica o "milagre da Inglaterra moderna". E é a ausência dessa mesma "corrente de ouro" que explica o "efeito do álcool em estômago vazio" produzido em França pela importação das ideias de Locke.
Argumentarei, finalmente, que é ainda essa "corrente de ouro" que explica que a Inglaterra tenha resistido a Hitler, inicialmente sozinha, e, logo em 1946, tenha sido a primeira - de novo pela voz de Winston Churchill - a denunciar a "cortina de ferro" soviética.
Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; presidente da Churchill Society




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