Ambiente
Cimeira. Guerra entre países ricos e países pobres em Copenhaga
por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 09 de Dezembro de 2009
Rascunho secreto de acordo final de Copenhaga revela que países mais ricos querem emitir mais gases que os pobres
Cimeira do clima, dia 2. A meio da tarde, uma notícia percorre a cimeira como um relâmpago. Um "rascunho secreto" do acordo final de Copenhaga revela que os países ricos têm um plano para afastar-se dos compromissos adoptados no Protocolo de Quioto - o único acordo vinculativo até à data - e reduzir o papel das Nações Unidas nas negociações sobre alterações climáticas. O chamado "texto dinamarquês", a designação usada pelo jornal britânico "The Guardian" , aumenta os poderes das principais potências mundiais e condiciona a ajuda para os países em desenvolvimento a uma série de compromissos.
Segundo o mesmo documento, às populações dos países mais ricos vai ser permitido emitir mais gases, quase o dobro do que era previsto, com o limite a ser estabelecido nas 2,65 toneladas. Já os países em desenvolvimento apenas poderão emitir 1,44 toneladas. A proposta passa ainda pela criação de uma nova categoria entre os países mais pobres, denominados "os mais vulneráveis".
O editor de ambiente do jornal "The Guardian" garantia ontem que as delegações dos países mais pobres "reagiram com fúria" ao conteúdo, mas também pelo carácter clandestino do documento, que até então tinha circulado apenas por meia dúzia de delegações.
Uma das questões decisivas é o montante destinado aos países pobres mais prejudicados pelo aquecimento global. Reino Unido, Japão e outros países ricos acenam com uma soma de dez mil milhões de euros anuais a partir do próximo ano (a União Europeia pagaria 30% desse valor), mas a oferta já foi rejeitada como meros trocos pelos 132 países do G77.
a QUESTÃO DO FINANCIAMENTO "O medo dos países pobres é compreensível", diz o vice-presidente da Quercus, Francisco Ferreira, que está a participar como observador na cimeira em Copenhaga. "Receiam que o financiamento a curto prazo ofusque o dinheiro a médio e longo prazo, e neste caso estamos a falar de montantes de três dígitos."
Numa carta publicada em exclusivo no i no mês de Setembro passado, o presidente da Comissão Europeia (CE), José Manuel Durão Barroso, tinha avaliado em 100 mil milhões de euros anuais a ajuda suplementar "para combater as alterações climáticas" nos países em de-senvolvimento. A maior fatia deverá provir do mercado de carbono, mas perto de metade, diz Barroso, tem de ser financiada com "transferências de fundos públicos dos países desenvolvidos".
Diversas organizações não-governamentais reclamam um montante superior: 200 mil milhões de dólares anuais (135 mil milhões de euros). Segundo Antonio Hill, da Oxfam International, esse montante "poderia disparar uma reacção em cadeia" de solidariedade na cimeira. "Os países ricos estão enganados se pensam que a oferta de reduzir menos de um terço as emissões [...] e 10 mil milhões de euros em promessas de ajuda requentadas vão ser vistos como um êxito daqui a duas semanas", escreve Antonio Hill.
Pouco antes, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) tinha apresentado as conclusões preliminares do próximo relatório anual. O organismo das Nações Unidas confirma que esta década está a ser a mais quente dos últimos dois mil anos e que 2009 será o quinto ano com temperaturas mais elevadas desde que há registos (1850).
A OMM utiliza medições de duas agências norte-americanas e da universidade britânica de East Anglia, envolvida recentemente no Climategate - escândalo que tenta pôr em causa o trabalho de alguns investigadores do centro. Os responsáveis da organização meteorológica garantem que os dados fornecidos pelas três agências meteorológicas coincidem nas conclusões.
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