Editorial

Porque fazem falta os imigrantes

por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 08 de Maio de 2009   
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O governo, e ao lado dele sindicatos e patrões, estão a tentar aproveitar a crise (e as dificuldades dos portugueses em encontrar trabalho) para lançar uma campanha contra os imigrantes. Não sabem o que fazem.
Os imigrantes são assunto sério. Não porque enchem os cofres da Segurança Social de dinheiro fresco nem por aceitarem por menos dinheiro os empregos que os nacionais rejeitam. Os imigrantes são importantes porque são um poderoso motor de evolução das sociedades que escolhem para viver.
Will Kymlicka é um professor canadiano da Universidade de Queens, no Ontário, e tem dedicado toda a sua vida académica a estudar – a compreender – este complexo problema das minorias (pode ler aqui uma tese sobre o seu multiculturalismo). Não é brando nem duro: é claro. Considera que os imigrantes devem fazer um esforço de adaptação às realidades culturais onde vivem, mas sublinha que estas realidades devem procurar formas de aproximação. Parece demasiado simples, mas a alternativa às ideias de Kymlicka é quase sempre o nascimento de perigosas guerras autonómicas.
Ora outros que estudaram o problema depois de Kymlicka
não hesitam em reconhecer que a competição que os imigrantes introduzem nas culturas onde se inserem é intensa.
Mas os países habituaram-se a olhá-los de forma simples. Assim: a esquerda olha-os piedosamente como gente explorada por capitalistas impiedosos a quem tudo se desculpa; a direita como empregados precários que, mais cedo ou mais tarde, engrossarão as estatísticas do crime. Mas não é isso que eles são.
Experimente olhá-los assim: imigrantes são gatilhos que obrigam culturas instaladas e conformadas a melhorar. Na verdade, os imigrantes, com a sua cultura, os seus hábitos, obrigam todos os outros a adaptar-se à sua volta. São o antepassado comum de Darwin, que melhora todos os outros pelo método da selecção natural e assegura que a diversidade é qualidade. Para Kymlicka essas virtudes não significam que tudo se lhes desculpe, como sugere a esquerda, ou que tudo se lhes aponte, como propõe a direita. Significa que tudo se pense para aproveitar o que têm de bom – e que como aqui se vê vai muito para além das vantagens económicas.
Mas este governo, estes sindicatos, estes patrões, decidiram que o ideal seria diminuir o seu número. Revelam o que são: velhos do Restelo com medo de renovação. É por isso que a mudança faz tanta falta.



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