Saúde

Lipoaspiração. Complicações são raras, dizem os médicos

Publicado em 01 de Dezembro de 2009   
Cirurgiões mostram-se espantados com as notícias sobre o estado do treinador Manuel Machado. A operação é vulgar "e muito simples"
O treinador está em coma induzido para atenuar as dores. O estado passou de muito grave a grave
Surpresa. É esta a reacção dos cirurgiões plásticos às notícias que avançam que Manuel Machado, treinador do Nacional, está internado há três dias nos cuidados intensivos devido a complicações decorrentes de uma alegada lipoaspiração abdominal. "A lipoaspiração é uma cirurgia cada vez mais recorrente e muito simples. As complicações são invulgares, podem contar-se pelos dedos das mãos as que correm mal", assegura o cirurgião João Anacleto. "Não é uma cirurgia que comporte grandes riscos. É uma cirurgia rápida - geralmente dura pouco mais de uma hora -, e os doentes têm alta passado 24 horas. Em 30 anos de cirurgia estética, nunca conheci uma situação do género", acrescenta o cirurgião José Mário Rêgo. Ambos os especialistas realçam que não conhecendo os pormenores da cirurgia - e em que condições e onde terá sido realizada -, é difícil traçar o que pode ter acontecido durante a operação para que Manuel Machado tenha terminado, dias depois, em coma induzido no Hospital Nélio Mendonça, no Funchal.

Segundo fonte da unidade hospitalar onde o treinador está internado nos cuidados intensivos, o estado evoluiu de forma positiva nas últimas horas e terá passado, durante o dia de ontem, de "muito grave" a "grave": "As 48 horas mais delicadas já passaram. Está em coma induzido para atenuar as dores. O estado é estacionário e ainda não se sabe quando lhe será dada alta médica. Tudo dependerá da evolução."

Durante o período de internamento nos cuidados intensivos, o treinador "tem sido sujeito a pequenas intervenções de remoção de tecidos necrosados (mortos) para que o organismo continue a recuperar da infecção", acrescentou fonte do Hospital madeirense.

Os responsáveis clínicos do hospital não adiantam a causa que terá levado a complicações decorrentes de "uma infecção não detectada em tempo útil" e continuam a não existir certezas sobre a natureza da operação a que o técnico terá sido sujeito na terça-feira passada: o clube adiantou que Manuel Machado tinha sido operado a uma hérnia na zona abdominal, mas o "Correio da Manhã" e o "JN" avançam que se terá tratado de uma lipoaspiração ao abdómen. Fonte do hospital do Funchal adiantou apenas ao i que "o doente pediu expressamente ao hospital que não divulgasse o carácter da cirurgia a que foi submetido no Norte do país."

A confirmar-se a hipótese de cirurgia estética, a causa mais provável de um estado de infecção é a "perfuração da parede abdominal ou toráxica", adianta o especialista José Mário Rêgo. "Não sendo frequente, é a complicação mais vulgar e pode conduzir a um quadro clínico complicado." José Mário Rêgo esclarece ainda que uma perfuração abdominal não é sentida de imediato: "Só dias depois é que surgem os sinais - febre, dores nas paredes do estômago ou infecções." Esse motivo explicaria que, só na sexta-feira, três dias depois da operação, e já na Madeira, o técnico se tenha sentido mal e dado entrada nos serviços de urgência do hospital do Funchal.

Outras complicações menos prováveis de uma lipoaspiração e que poderiam conduzir a um quadro clínico delicado seriam "trombose venosa pulmonar" ou "choque hipovelémico". No entanto, uma trombose venosa pulmonar "seria detectada mais cedo" e um choque hipovelémico "dificilmente aconteceria com um anestesista experiente".

Vergonha da cirurgia estética O clube desportivo disse desconhecer a natureza da intervenção cirúrgica a que Manuel Machado iria ser sujeito na semana passada. Os especialistas têm dúvidas sobre uma omissão propositada do treinador. "Há cada vez mais lipoaspirações - que servem para mudar o contorno corporal e não para reduzir celulite, como erradamente se pensa - nos homens. Eles já não sentem vergonha de fazê-las", diz o cirurgião plástico João Anacleto. E se José Mário Rêgo aponta que as complicações "podem ocorrer mais naturalmente se forem feitas por pessoas que não estão correctamente habilitadas", os especialistas não acreditam que seja a vergonha a conduzir ao recurso a cirurgiões menos preparados. O sentimento de vergonha não é razão "para recorrer a médicos de segunda linha", porque "o sigilo profissonal protege os pacientes, adianta João Anacleto. Com M. A. B.


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