Música

Um fenómeno chamado Gustavo Dudamel

por Francisco C. Sasseti, Publicado em 01 de Dezembro de 2009   
Nos EUA tratam-no como estrela de cinema e vendem-se T-shirts com a sua imagem. O mediático maestro venezuelano actua amanhã em Lisboa
Segundo a revista
A recepção hollywoodesca que teve quando chegou a Los Angeles, para assumir nada menos que a direcção musical da Orquestra Filarmónica, diz tudo: a sua cara apareceu em posters, flyers e nos autocarros e até se fizeram chávenas e T-shirts com a sua imagem. Uma multidão reuniu-se para desejar entusiasticamente as boas-vindas a Gustavo Dudamel. A cidade apaixonou-se pelo maestro, coisa nunca vista desde Leonard Bernstein.

Dudamel tem 28 anos, é venezuelano e, poucas vezes na história, a música clássica assistiu a um fenómeno destes. Mediatizado até à exaustão, consegue no entanto sustentar o seu estatuto com um verdadeiro talento musical e um trabalho notável. Dudamel só teve este sucesso meteórico devido às capacidades artísticas excepcionais e ao grande carisma que demonstra.

Origens De meninos ou jovens prodígio está a música clássica repleta. A diferença para Dudamel é o seu percurso e o que ele simboliza hoje em dia.

Nasceu em 1981 em Barquisimeto, capital do estado de Lara na Venezuela, a pouco mais de 300 quilómetros de Caracas. Começou a aprender violino cedo, a partir de 1996, iniciou- -se na direcção de orquestra. Passo a passo, foi subindo no El Sistema, o admirável programa nacional venezuelano de orquestras de jovens: Fundação do Estado para o Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela (FESNOJIV), programa distinguido pela Unicef e pela Unesco e responsável pela educação musical de 250 mil crianças em todo o país, a grande maioria proveniente de meios desfavorecidos.

Em 1999, aos 17 anos, Dudamel torna-se director musical da Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar. Em 2004 vence um concurso de direcção de orquestra em Bamberg, na Alemanha e, no ano seguinte, assina um contrato de exclusivi- dade com a histórica editora Deutsche Grammophon.

Entre prémios e distinções, e antes de ir para a Filarmónica de Los Angeles, foi ainda nomeado director musical da Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, na Suécia, em 2006 e, como maestro convidado, passou pelas Filarmónicas de Berlim, Viena, Israel e Nova Iorque, pela Orquestra da Gewandhaus de Leipzig, pela Scala de Milão e a Staatsoper de Berlim, entre muitas outras.

Em 2009, foi considerado pela revista "Time" uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Tudo, antes dos 30 anos.

Música, maestro O segredo? Uma exuberante alegria a fazer música. "Preciso da música, como do ar, como da água, como de comida", disse Dudamel numa recente entrevista à CBC News. E continuou: "Quando estou a dirigir, gosto de dar toda a minha energia. Mesmo se disserem que faço demasiado. É desta forma que a minha alma, que o meu corpo, está a exprimir o que quero." Cada vez que pega na batuta, Gustavo parece uma criança a entrar no mundo mágico da música.

Considerado um dos grandes maestros da actualidade, tem todas as condições para, no futuro, vir a deixar uma marca pessoal, à imagem de um Bernstein, um Kleiber ou um Karajan. Mas, para isso, ainda é cedo.

Dudamel tornou-se no fenómeno que hoje é também pelo que simboliza, quer para o meio muitas vezes conservador da música clássica, quer para os muitos milhares de crianças do El Sistema venezuelano de onde saiu e do qual é a ponta do icebergue. Música à parte, esta parece mesmo ser a faceta de Gustavo que mais interessa: a de personificar o sucesso de um programa educacional inovador e de desmistificar a ideia de que a música clássica é só para elites, fazendo-a sair das suas próprias barreiras e chegar a públicos diferentes, tornando- -a popular.

Gustavo Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Ibero-Americana amanhã, às 19h00, no Grande Auditório da Gulbenkian


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