Sporting sim, mas só para marido e mulher
Publicado em 30 de Novembro de 2009
Os leões não fazem descontos a casais gays. Não há má-fé em Alvalade. Apenas uma estratégia comercialmente mal ajustada
Correm tempos estranhos em Alvalade. À falta de mais mulheres nas bancadas, os leões puseram à venda um produto estranho. Estranho porque tem uma lógica comercial - propõe descontos de época para casais -, estranho porque discrimina as promoções segundo o sexo do casal. Dito de outra forma: o Sporting não faz descontos a casais homossexuais. A história que o i conta (Zoom nas páginas 14 a 17) parece incrível mas não é nova. Há um ano que os leões prometem condições especiais apenas e só para os casais convencionais: homem e mulher, solteiros ou casados. Dois e de sexos diferentes. De uma penada, os leões caíram numa campanha que consegue ser comercialmente interessante e constitucionalmente aberrante. É verdade que o clube está no limbo jurídico que é ser, ao mesmo tempo, público e privado. É uma SAD que deve dar lucros, mas também uma instituição de utilidade pública com o dever de servir todos os seus sócios. O problema é que, para o Sporting SAD, esta é uma campanha ajustada às suas necessidades: trazer mais mulheres - e não mais homens - para as bancadas. Não há má fé em Alvalade - apenas uma estratégia comercial pouco ajustada ao momento que o país vive. O debate em torno dos direitos homossexuais acelerou nos últimos anos com a maioria de esquerda no Parlamento e qualquer passo atrás - como este promoção leonina - não cai nada bem. A discriminação positiva costuma ser o meio mais justo - e mais rápido - para atingir uma sociedade mais igualitária. Não foi o caso desta campanha.
Em 2001, o seleccionador António Oliveira também dizia que não havia espaço para a homossexualidade no futebol. O discurso caiu mal - aliás, toda a campanha no Mundial do Japão e da Coreia do Sul caiu mal - e hoje, oito anos depois, a frase parece tirada de um western à moda antiga. O país evoluiu. Já não ri do disparate, já consegue debater a igualdade de direitos com uma visão mais jurídica do que passional. Em 2001, quando os jornais discutiam a selecção de Oliveira, o Parlamento impôs a primeira lei das uniões de facto. Ainda só passaram oito anos e a discussão já revolve em torno do casamento e da adopção. Mas também há razões - fortes - para não darmos um passo maior do que a perna. Há limites para o debate dos direitos, nomeadamente quando envolvem terceiros. Há consequências - ainda por calcular - da adopção de menores por casais homossexuais. E é preciso tempo, assim como foi preciso tempo para chegarmos aqui. Casos como o que o i descreve hoje não são fruto de mentalidades retrógradas, nem de um clube fechado nas suas convicções. São, apenas e só, o produto de um país que ainda corre para se ajustar às novas realidades, aos novos direitos adquiridos. Daqui por uns anos, tudo isto parecerá uma questão menor. E nesse dia, mais próximo do que se pensa, comprar um bilhete com desconto de casal será apenas uma prova de amor ao clube.
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