Dubai igual a Portugal
por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 28 de Novembro de 2009
O país dos hotéis de sete estrelas antecipa uma realidade violenta e revela o que pode acontecer a Portugal - lá, como aqui, a economia depende em exclusivo dos serviços
O que se passa no Dubai é um exemplo do que pode acontecer a uma economia como Portugal. Não é brincadeira. A dívida dos Emirados atingiu 103% da riqueza gerada e a economia, por lá, está sustentada nos serviços - valem 74% do PIB. É aí que estão os incríveis hotéis de sete estrelas, as ilhas em forma de palmeiras ou a pista de esqui em pleno deserto. É também por isso que o país declara agora precisar de mais tempo para pagar a sua dívida.
Portugal, como se sabe, tem uma dívida próxima dos 90%. A economia, conhece-se também, vive dos serviços: valem 70% do PIB. Tudo o que produz é, em geral, para consumo interno - de quem vive ou de quem vem de fora. Não há - já se disse - os chamados bens transaccionáveis (esses produtos apetecíveis noutros mercados). A indústria, por isso memo, é residual.
Em Outubro de 2007 visitei demoradamente os Emirados. No Dubai, em Abu Dhabi, o jornalista Bruno Faria Lopes (que assina um trabalho nas páginas 18 a 21 desta edição) e eu conhecemos a realidade daquele incrível país. Ficámos deslumbrados, claro. Entrevistámos o homem que concebeu a media city, conhecemos os responsáveis pelas grandes construtoras e conversámos com um pequeno empresário de marcenaria que, de um dia para o outro, transformou a sua pequena oficina numa produtora de portas. Dizia ele, de sorriso rasgado: "Aqui encomendam-me 20 mil portas de madeira de cada vez." Era o melhor dos mundos.
Uns meses antes, no dia 3 de Fevereiro de 2007, o xeque que agora surge em todas as imagens - o vice-presidente e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Rashid Al Maktoum - tinha apresentado ao mundo o seu plano estratégico para o ano de 2015. Ele prometia mais porque acreditava na estratégia que tinha seguido. Dizia ele, de palavra segura: "O sector dos serviços foi a força impulsionadora do crescimento económico, com uma contribuição para o PIB de 74%, replicando as economias dos países desenvolvidos." Nessa tarde o Bruno e eu demorámo-nos na pista de esqui em pleno deserto. Comprando serviços ao xeque. Subitamente, o mundo mudou.
O dinheiro deixou de entrar nos serviços do país e a empresa pública Dubai World (representa quase o país inteiro) explicou ontem que precisava de mais tempo para pagar as suas dívidas. Claro: se não vende serviços, não ganha dinheiro.
Portugal tem uma economia semelhante, com a agravante de não ter pistas de esqui em pleno Rossio nem hotéis no Atlântico a lembrar palmeiras. Mas ninguém parece preocupado em alterar esta terrível dependência.
O pânico do ministro das Finanças português - ao perceber que a oposição negara ao governo a possibilidade de receitas fiscais adicionais vindas do novo Código Contributivo - explica bem a incapacidade do país gerar dinheiro. E quando não há dinheiro... até o Dubai pode sugerir falência. O Dubai pode parecer distante, mas mostra bem o que pode acontecer a economias como a portuguesa.
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