Investigação
Fazer ciência em Portugal. Moscas, surf e boa comida
Publicado em 28 de Novembro de 2009
Gostam de praia e estranham tantos coffee breaks. O i falou com dez nomes da nova ciência que se faz no país
Sanjun Zhao, 34 anos, nunca viu ninguém a surfar na China. E vem de Qingdao, uma cidade à beira-mar. Cá é assim que passa os tempos livres. Orsolya Varga, com menos dois anos, é de Debrecen, no Leste da Hungria, e também diz que o melhor de Portugal é o surf. Já a australiana Jennifer Rowland, 34 anos, agradece não haver tubarões - encontrou um sítio onde pode enfiar-se nas ondas à vontade. O i foi à procura de investigadores estrangeiros em Portugal e descobriu mais denominadores comuns do que a ciência. A sintonia sente-se até na hora das queixas: o ritmo do país é lento, não se respeitam prazos e o trabalho tem muitos intervalos.
A escolha é grande, quando cada vez há mais cientistas a escolher laboratórios portugueses para trabalhar ou continuar a formação académica. Segundo os últimos dados da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), nos últimos dois anos, de mil doutorados contratados para investigação, 41% são estrangeiros. A área preferida pela maioria são as ciências exactas e naturais, com 41% das candidaturas. Aponta-se o destino: Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC), em Oeiras, e Instituto de Biologia Molecular e Celular, no Porto, duas referências nestas disciplinas e escolhem-se dez investigadores.
Milena Herrera, 33 anos, tem a explicação mais científica para estar em Portugal. É de Holguin, no interior de Cuba, e estuda uma doença hereditária conhecida por ataxia espinocerebelar tipo 2. Em 2002, veio ao IBMC assistir a uma conferência. "Descobri que existiam populações muito semelhantes em termos de prevalência e concentração deste tipo de doenças", diz. Está cá há cinco anos. Casou-se com um português e em Setembro ajudou a fundar o primeiro mestrado em Genética Psicossocial do país, no Porto. Dá aulas em regime voluntário e tira o rendimento de consultas particulares de aconselhamento a doentes e familiares. "Venho de uma cultura muito mais aberta e optimista. Ainda me custa que aqui as coisas sejam um bocado mais cinzentas", lamenta.
Leonardo Guilgur, 33 anos, não podia concordar menos. É de Santa Teresita, na Argentina, e está em Portugal há um ano e quatro meses. Arranjou um apartamento na Rua da Glória, Baixa de Lisboa, e divide a renda com colegas. Os 1500 euros que recebe de bolsa são mais do que suficientes, garante. Trabalha rodeado de milhões de pequenas moscas enfrascadas, que permitem estudar as propriedades das células epiteliais durante o desenvolvimento. Estas moscas (nome técnico: Drosophila) são um dos modelos vivos mais utilizados para estudar mecanismos básicos que poderão ser comuns em humanos. Mas não foi só o trabalho que o trouxe a Portugal. "Sabemos que há países que estão à frente de Portugal em termos científicos. Mas eu quis um equilíbrio entre trabalhar bem e viver bem. Aqui a comida é muito boa, as mulheres são muito giras."
É com a mesma graça que o japonês Masayoshi Murakami, 32 anos, sabe dizer "Bairro Alto", lugar de eleição em Lisboa. Veio há um ano e meio para Portugal quando o líder do laboratório onde estava, em Nova Iorque, aceitou trabalho no programa de neurociências da Fundação Champalimaud, instalado no IGC. Estuda os mecanismos básicos por detrás das decisões impulsivas. Rendeu--se às praias e ao facto de não ter de pagar 5 euros por uma cerveja, como fazia em Tóquio.
Carlos Ribeiro, 34 anos, é o "clássico filho de pais emigrantes", brinca. O pai é do Gerês, a mãe é espanhola, ele cresceu e estudou em Basileia, Suíça. Também trabalha com moscas no IGC mas está a tentar perceber que genes interferem na decisão de comer. "É do interesse da própria ciência que as pessoas procurem as melhores condições para desenvolver o seu trabalho", explica. "O nosso papel é descobrir, questionar. Muitas vezes não o fazemos por estarmos habituados sempre ao mesmo. Quando mudamos, é uma das coisas que aprendemos a fazer."
Com 29 anos, Reinhard Huber vem de Tamfweg, na Áustria. Estuda ética animal e trabalha num projecto internacional instalado no IBMC. A ideia de vir para Portugal começou com um ano de Erasmus no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Arranjou uma namorada portuguesa (agora tem outra) e procurou um laboratório para regressar a Portugal depois de acabar o curso. "A única coisa diferente em relação à Áustria é a Segurança Social. Cá os bolseiros não são tratados como trabalhadores", critica.
Outro ritmo A história de Peter Szucs, 35 anos, está ligada à de Orsolya. Casaram-se na Hungria e decidiram vir para Portugal. Tudo começou quando Orsolya veio passar três meses na Universidade de Coimbra, durante o curso de Medicina. Ele encontrou um trabalho na área, neurociências, e ela trocou direito e medicina pelas questões teóricas da bioética. "A língua é o mais difícil. Mas o estilo de vida é muito semelhante, a única diferença é que as coisas são um bocado mais lentas, os problemas demoram mais tempo a ser resolvidos", diz Peter. "Em Portugal as pessoas não respeitam prazos, e também não gosto do trânsito", adianta Orsolya. "Nós não temos carro e não se respeita muito quem anda a pé ou de bicicleta."
Jennifer Rowland, 34 anos, é de Brisbane, na Austrália e joga disco. Veio a Portugal participar num torneio na praia do Meco e conheceu um investigador do IGC. Trocaram cartões, e acabou por escolher Portugal quando teve de se sentar com o marido, italiano, para decidirem em que cidade iriam viver. Especialista em endocrinologia, estuda uma doença muscular hereditária e acredita estar no caminho certo para o seu tratamento. Vieram há dois anos, e agora está grávida de 15 semanas. "É muito mais comum [cientistas grávidas] em Portugal do que em qualquer lado onde estive. Acho que é por nos sentirmos confortáveis", comenta. O mais estranho durante a integração? "A quantidade de coffee breaks que as pessoas fazem durante o dia", ri.
Apesar de trazer investigadores estrangeiros ser uma das prioridades do governo, nem tudo são rosas. A francesa Florence Janody, 39 anos, é apenas um exemplo. Está em Portugal há três anos e meio. No ano passado recebeu uma bolsa de 3000 euros da FCT, quis comprar casa e nenhum banco lhe fez um empréstimo. "Era um contrato de cinco anos, sou francesa e não tenho fiador", explica.
Tinha dado sinal para um apartamento e agora tem um processo em tribunal para tentar reaver o dinheiro. "O pior quando se muda para um sítio é perceber o sistema. Quando cheguei não falava uma palavra português". Hoje é dos dez, a que fala melhor.
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