PRIMEIRO PLANO

O estranho fétiche da direita portuguesa

Publicado em 27 de Novembro de 2009   
A direita celebra o 25 de Novembro de 1975 como um complemento do 25 de Abril, uma revolução para a qual nunca se sentiu convidada
Estará a direita condenada a comemorar todos os anos o seu enterro?
A direita portuguesa mantém um estranho fétiche pelo 25 de Novembro de 1975. Uma atracção fatal que, deitada no divã, explica muito sobre a sua impotência política e o domínio ideológico da esquerda estatista em Portugal.

A direita celebra a data como se se tratasse de um complemento do 25 de Abril de 1974, a forma de se integrar numa revolução para a qual nunca se sentiu convidada.

Esta semana, o CDS apresentou um voto de congratulação da efeméride na Assembleia da República, pela voz do deputado Telmo Correia, que designava o acontecimento como "o dia em que se determinou que a revolução seria para uma democracia com Parlamento, eleições livres, com Constituição".

É um fétiche masoquista porque o 25 de Novembro de 1975 deu origem à Constituição da República. E este documento, apesar das sucessivas revisões, explica em boa medida por que razão Portugal continua a ser, 35 anos depois do 25 de Abril, um país em que o Estado é quem mais ordena. Onde o mercado é suspeito e a iniciativa privada vive sob permanente tutela pública. Onde chamar a alguém "liberal" ainda serve de insulto.

Trocando por miúdos, na versão oficial o 25 de Novembro de 1975 foi o golpe militar que pôs fim à influência da esquerda radical no período revolucionário - o chamado PREC - iniciado em Portugal com o 25 de Abril de 1974. As forças moderadas venceram os adversários pró-comunistas que pretendiam implantar um regime autoritário próximo da União Soviética. Graças a alguns militares, como Ramalho Eanes, evitou-se a guerra civil e um banho de sangue. Esta é, repito, a versão oficial, incensada nos altares de alguma direita portuguesa. Depois há quem leia a história do golpe com objectividade. O livro "Capitão de Abril, Capitão de Novembro" (Edição Guerra & Paz), do coronel Sousa e Castro, apresentado anteontem em Lisboa, não é o melhor dos exemplos, mas serve para tirar algumas dúvidas.

Serve para lembrar o que defendia a 1 de Dezembro de 1975 um dos principais protagonistas do 25 de Novembro, o general Ramalho Eanes, que um ano mais tarde seria o primeiro Presidente da República eleito democraticamente: "Fazer do Exército uma força apartidária, consciente e decididamente ao serviço do povo e da revolução democrática e socialista." Leu bem: "socialista".

Só sete anos mais tarde, em 1982, seria extinta essa instituição iraniana chamada Conselho da Revolução. As conquistas do PREC foram constitucionalizadas e tornaram-se dogmas de fé.

Foi este socialismo psicológico que se cristalizou nas mentes e nos discursos da maioria dos nossos políticos, do CDS ao PCP. Estará a direita condenada a comemorar todos os anos o seu próprio enterro?

Editor Zoom


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