Cinema
Lua Nova: porque é que as adolescentes adoram este vampiro? - vídeo
por Joana Stichini Vilela, Publicado em 26 de Novembro de 2009
No dia de estreia de "Lua Nova", perceba o sucesso da saga, a começar pelo herói, um verdadeiro vampiro de coro
Os números impressionam. Este fim-de-semana, o segundo filme do fenómeno "Crepúsculo" protagonizou a terceira estreia mais lucrativa de sempre nos EUA: quase 95 milhões de euros em receitas de bilheteira. No resto do mundo foram mais 82 milhões de euros. Ao todo, qualquer coisa como 177 milhões, em dois dias de exibição. "Lua Nova" chegou ontem a Portugal com uma sessão às 23h45, mas só hoje se estreia em todo o país. Os bilhetes estão à venda há um mês e as adolescentes de todas as idades correram a comprá-los. No ano passado, a primeira adaptação levou 200 mil ao cinema.
A saga "Crepúsculo" já é, dizem as vendas, o novo Harry Potter. Voltamos aos números: quatro livros, 19 milhões de exemplares vendidos, traduções para 37 línguas, incluído o árabe. Se andou os últimos anos perdido no mato e não está a entender o interesse do mundo islâmico por uma história americana sobre vampiros (criaturas que saem à noite das sepulturas para sugar o sangue dos vivos e transformar virgens em mulheres desvairadas), o i esclarece: a palavra-chave deste fenómeno milionário é "abstinência".
Porno ou castidade? Ambos. Com "Crepúsculo", sem querer, a mórmon Stephenie Meyer, de 35 anos, acabou por criar um novo género no romance para adolescentes: em inglês, "abstinence porn". Edward Cullen (Robert Pattinson), um vampiro com mais de 100 anos mas com o corpo de um rapaz de 17 anos, está perdido de amores por Bella (Kristen Stewart), uma miúda humana. Ao contrário do mais famoso dos vampiros, o Conde Drácula, de Bram Stoker, que nunca perderia a oportunidade de erotizar mais uma virgem, Edward resiste mesmo a tocar na amada. Ele nem sequer se alimenta de sangue humano. O pai adoptivo ensinou-o a não atacar humanos e a preferir os animais. Mas o belo atormentado receia não conseguir ficar-se pelos beijos, entusiasmar-se e levar a paixão às últimas consequências: morder Bella no pescoço e transformá-la em vampira.
Recapitulando: Edward e Bella são dois adolescentes de 17 anos que se amam, mas não se tocam, com medo das consequências nefastas. O sonho de qualquer cristão radical. Ou mórmon. "Penso que os adolescentes não precisam de ler sobre sexo gratuito", justificou Meyer. O que ela não esperava era que o desejo provocasse no público emoções mais fortes que a própria concretização. Ou seja, que a abstinência absoluta criasse uma tensão sexual tão forte que levasse à criação espontânea de uma nova categoria literária, a tal pornografia da abstinência.
"É excitante e não particularmente ameaçador porque eles não são abertamente sexuais", explicou em entrevista à "USA Weekend" Stephen King, também ele autor de best-sellers. "Grande parte do lado físico acontece através de um toque no braço ou pela passagem de uma mão pela pele. Ela depois só cora, toda quente e fria. E para as miúdas isso é uma abreviatura para todos os sentimentos com que elas ainda não estão prontas para lidar." A diferença entre Meyer e J.K. Rowling, defende, é que a criadora de Harry Potter é uma "escritora fantástica" e a mulher que só teve um emprego na vida (recepcionista, antes de constituir família) "não escreve nada".
Romeu e Julieta A agora milionária Stephenie Meyer diz que a ideia para a série de livros lhe surgiu em sonhos. Mãe de três rapazes, só tinha escrito um conto na vida. Nada que a impedisse de em apenas três meses transformar a epifania num romance de 500 páginas, "sobre a vida e não a morte, sobre o amor e não a luxúria". A inspiração para o primeiro foi "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen. O clássico de Shakespeare, "Romeu e Julieta", serviu de base para o segundo. "Drácula", de Bram Stoker? Nunca leu. Tal como não vê, por princípio, filmes para maiores de 18. Edward Cullen é um vampiro, mas também podia ser um anjo ou um surfista, deduzimos. Na essência é um herói romântico, tal como Leonardo DiCaprio em "Titanic".
Daí, aliás, a caracterização particular daquele que é o vampiro mais famoso do momento e que talvez venha a redefinir o género para toda uma geração. Ora vejamos, em vez de se transformar em cinzas quando apanha luz, este Adónis de dentes afiados resplandece ao sol. Ele sofre por amor, é charmoso e educado, mas tem tendência para analisar demasiado as situações. Estás a ver? Edward toca piano, mas também ouve jazz e rock. Depois de Bella do que gosta mesmo é de carros, como o Aston Martin que guia nos dias especiais e o Porsche que ofereceu à irmã. Sim, é rico. Mas também vive há muitos anos. Teve tempo para isso. É imortal, veloz, forte e ágil. Um super-herói. Até mentes lê, menos a da sua amada, "demasiado privada".
Felizes para sempre (Se quer vibrar com "Crepúsculo" até ao fim, o melhor é ficar por aqui.) Mais para a frente, Edward e Bella dormem mesmo juntos. (nós avisámos) Só depois do anel e do casamento, claro. Na lua-de-mel ela fica à espera de bebé. A gravidez é complicada. Ed quer que ela aborte. Acaba por dar à luz por cesariana. Tornam-se todos vampiros. Bella sofre outra transformação: dona de casa. Final feliz, diz Stephenie Meyer. Os fãs queixaram-se: desapareceu a emoção.
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