Energia

Pereira de Miranda. Petróleo tem de subir para que haja mais investimento

por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 24 de Novembro de 2009   
O consultor das grandes petrolíferas alerta, em entrevista ao i, que os grandes investimentos só regressarão com petróleo perto dos 90 dólares
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Agostinho Pereira de Miranda, presidente da sociedade de advogados Miranda Correia Amendoeira, defende que o debate sobre o nuclear deve ser feito
Pereira de Miranda é um advogado especializado no mercado da energia, sector ao qual está ligado há mais de duas décadas. Diz que a energia só vai chegar para todos se o petróleo ficar mais caro. Defende que o carvão é uma fonte com enorme potencial, já que as técnicas de captura de emissões poluentes estão cada vez mais sofisticadas.

Dada a actual situação política e económica, o tema da energia não parece ter caído no esquecimento?

Sim. Isso preocupa-me e muito porque o facto de só se discutirem as questões energéticas quando o preço sobe é mau a vários títulos. A situação do preço da energia nos mercados internacionais, especialmente do petróleo, está a ter uma consequência que terá impacto nas nossas vidas nos próximos anos: a quebra de investimento para níveis medíocres. Mesmo ao preço actual [72, 73 dólares] há muitos investimentos que não têm retorno assegurado num horizonte em que o petróleo pode cair para 50 ou 40 dólares. As decisões das grandes operadoras internacionais já hoje se ressentem, em parte, por efeito deste nível de preços. Por outro lado, também não se potencia o desenvolvimento das energias renováveis.

Há um preço de equilíbrio a partir do qual já compensa?

Provavelmente estamos próximos dele, não temos é condições de sustentabilidade para o manter. Esse preço deve estar entre os 70 e os 90 dólares. Mas ao preço actual e com as perspectivas de volatilidade, os operadores consideram que mais investimento não é sustentável. Hoje é 73, amanhã pode cair para 40 e depois pode chegar aos 100. Ora, enquanto não houver uma tendência dominante que aponte claramente para a fixação do preço na banda de 70 a 90 dólares, há muitos investimentos que não vão ser feitos.

Será só um problema de incentivo pelos preços, ou será também um problema tecnológico? Há tecnologia viável para chegar ao petróleo que ainda existe ?

Nos últimos dez anos, fizeram-se avanços muito surpreendentes no que toca à exploração petrolífera e de gás. Basta dizer que há cerca de um mês a BP fez um furo no Golfo do México com uma profundidade superior a 10 quilómetros, o que significa estar a furar a temperaturas de 300 graus centígrados e com uma pressão enorme nunca antes experimentada. Isto significa que, ao mesmo tempo, as taxas de recuperação de petróleo que durante décadas e décadas não ultrapassaram os 30% a 40% [do total de petróleo nos jazigos], hoje já ultrapassam os 50% e caminham para os 60%. E há outras tecnologias ainda mais importantes, mas mais complexas, como a monitorização digital dos reservatórios, que tiveram avanços muito grandes. Pelo contrário, as energias renováveis ainda são muito reféns de tecnologias antigas, que têm 40, 50 e mais anos. Por exemplo, a energia solar está fundamentalmente estruturada com base em tecnologia que tem já meio século. Os aerogeradores são considerados, do ponto de vista tecnológico, máquinas velhas e ultrapassadas. E no entanto, eles estão a ser montados e as instalações estão a ser feitas e vão servir-nos nos próximos 20 ou 30 anos.

Quem são os culpados da alta volatilidade do preço do petróleo? A financeirização sem precedentes e a falta de regulação?

O petróleo é o mercado de matérias-primas mais extenso do mundo. E isto é assim tanto no mercado físico, como no financeiro. A volatilidade é inerente à dimensão do próprio mercado. Por isso, o preço continuará a subir e a descer, como tem acontecido ao longo dos últimos 150 anos. Os factores que potenciam essa volatilidade estão identificados e o primeiro é, seguramente, a especulação. Os operadores financeiros querem utilizar este instrumento por ser muito atraente. Durante muito tempo, um barril físico de petróleo correspondeu exactamente a um título que era transaccionado. Em apenas dez anos, isso mudou radicalmente. Hoje a proporção é de 70 a 100 títulos ou barris virtuais por cada barril físico.

Um excesso de alavancagem, justamente o problema que rebentou com outros mercados, como o de crédito?

Claro.

Mas porque é que não se discute essa questão?

É uma boa questão. Não sei. Só conheço uma iniciativa, da SEC dos Estados Unidos, em matéria de regulação dos mercados de futuros. E essa tem-se confrontado com objecções muito grandes por parte daqueles a que chamo os radicais do imobilismo. Dizem que não se deve tocar nisto porque vai tirar flexibilidade ao mercado. A minha convicção é que nesse domínio, a pressão será maior se o preço do petróleo regressar a níveis mais especulativos, caso haja uma retoma económica significativa e um crescimento muito grande na Ásia, por exemplo.

Referiu-se a uma certa estagnação nas tecnologias em que assentam as fontes renováveis. Mas há muito dinheiro público a ser canalizado para esse sector.

Há uma série de inovações e de novas soluções, ao nível dos materiais utilizados, por exemplo. E as grandes empresas do sector petrolífero estão elas próprias a investir nessa transformação, no desenvolvimento das fontes não fósseis. A italiana Eni está muito interessada na energia solar, ao passo que a Exxon decidiu investir nos microrganismos que possam consumir CO2 [dióxido de carbono]. Em algas artificiais, em projectos de engenharia molecular.

Está a falar de um "dois em um"? Uma tecnologia que converte CO2 em energia?

Na realidade, são duas linhas de investigação distintas. Uma é a captura de CO2, outra a produção de energia. Ambas podem convergir uma para a outra. Craig Venter tem de ser levado muito a sério. Ele está a trabalhar numa tecnologia em que é possível produzir energia com microorganismos que se alimentam exclusivamente de sol e ar, mais nada. No passado, e contra a má vontade das instituições, ele mostrou ser capaz de fazer o mapa completo do genoma humano. Dizia-se que ia levar dez anos e fê-lo em dois. É considerado um maverick, mas em todo o caso deve ser levado muito a sério.

Sobretudo porque trabalha para a Exxon.

Pois, foi o único que conseguiu estabelecer uma joint venture no valor de 600 milhões de dólares com a companhia norte-americana. Há uma série de áreas inovadoras onde iremos testemunhar um progresso tecnológico rapidíssimo. Para além do mais, os Estados estão a pôr imenso dinheiro nestes desenvolvimentos.

À luz do que está a dizer, acredita que é possível reinventar a indústria automóvel em larga escala?

Penso que sim. Acho que vamos ter, mais rápido do que se julga, automóveis leves e super-leves, o motor de combustão interna vai sofrer alterações significativas. Mas temos de ver a realidade: é uma indústria que se deixou atrasar demasiado, tendo beneficiado da enorme boleia histórica da energia barata. Temos estas tentativas dos carros eléctricos que ainda são muito incipientes.

O caminho não é o dos carros eléctricos?

Acredito mais numa solução de inovação fracturante, uma disruptive innovation, como aconteceu nas telecomunicações.

Acredita que em dez anos o panorama pode mudar radicalmente. Para quê?

O que surgir terá de aproveitar a infraestrutura energética mundial que existe. De momento, o que se vê são soluções híbridas e o potencial para grandes avanços em várias frentes. Diria que a engenharia molecular e a nanotecnologia são os domínios mais bem posicionados para alcançar resultados drásticos e surpreendentes. Mas não podemos deixar de pensar nisto: se uma das técnicas que está a ser testada em larga escala para captura de CO2 tiver sucesso - na qual, por exemplo, a União Europeia Europa está a investir muito dinheiro -, o que vai acontecer é que a próxima fonte de energia principal pode muito bem ser o carvão. O caso do carvão é muito interessante.

Isso não é adiar outra vez o problema, a elevada dependência das fontes de energia fósseis?

No mundo, há dez vezes mais carvão do que petróleo. E mais de metade das centrais de produção de electricidade existentes são movidas a carvão. Estão a ser feitos esforços muito significativos em técnicas de sequestro da poluição resultante desta forma de energia, seja na Europa, seja nos Estados Unidos. E caso se chegue àquele cenário, em que existem microrganismos que usam o CO2 para produzir energia, então fecha-se o ciclo.

Mas há países que estão mais confortáveis do que outros no acesso ao carvão. A Rússia e a China são donas das maiores reservas do mundo. Vão ser os principais beneficiários?

A Rússia e a China, claramente. Mas também a Austrália e os Estados Unidos. Na Europa, há menos carvão, mas ainda assim, há reservas importantes na Alemanha e na Polónia. Diria que o grande beneficiário líquido desta solução será a China pois embarcou num programa sistemático de centrais de carvão por não poder esperar pelas centrais nucleares, cerca de 50, que entretanto já encomendou.

Defende a solução nuclear?

Não pode ser ignorada. Há uma série de mitos sobre esta forma de energia que deveriam ser desmontados. Sinto-me particularmente à vontade para falar nisto porque sou presidente de duas associações de defesa do ambiente. Estou convencido que o nuclear também faz parte da solução para os problemas energéticos do mundo.

Mas, na Europa, por exemplo, essa discussão está bastante tremida. Porquê? É um problema financeiro, é o medo de assumir isso como opção política?

A principal razão é a falta de coragem política. Os eleitorados europeus são pouco favoráveis à opção nuclear e os políticos não querem retomar a discussão porque sabem que podem perder votos.

Acha que o governo de Sócrates não lançou a discussão porque tinha medo de perder ainda mais votos e, no fundo, as eleições?

Penso que sim. Interpelei directamente o ministro da Economia sobre esse assunto. Penso que houve claramente uma decisão política, que não foi devidamente ponderada. A decisão política, provavelmente, foi desencadeada em reacção àquele projecto concreto de Patrick Monteiro de Barros. Tanto quanto se sabe publicamente, seria extraordinariamente caro para os contribuintes portugueses. As subvenções ao investimento eram de tal ordem que acabaram por servir de pretexto para o governo evitar a discussão e assumir uma posição de princípio contra o nuclear. Acho que foi um expediente que fez com que tivéssemos perdido uma hipótese muito interessante de pelo menos reflectir sobre as vantagens e inconvenientes dessa forma de energia.

O nuclear pode não ser caro?

Sim. O investimento primitivo é volumoso, mas os custos operacionais são relativamente baixos.

Mas uma central tem de ser fortemente controlada. Isso não é caro?

Há várias questões. Temos mais de 30 mil barragens construídas em todo o mundo que produzem apenas 7% da energia primária. As menos de 500 centrais nucleares existentes produzem a mesma percentagem de energia. Estou convencido de que os danos causados à Humanidade pela exploração da energia hídrica, o impacto tremendo que as barragens têm tido nos ecossistemas e na biodiversidade é, de longe, superior, ao impacto do nuclear, designadamente em termos de acidentes, perdas de vidas humanas e danos ambientais.

Imaginemos que agora se construíam mais centrais nucleares do que barragens. O risco associado não aumentava? E como se resolveria o problema dos resíduos nucleares?

A questão do armazenamento dos resíduos tem sido sistematicamente mal explicada. Que nós saibamos, esses resíduos - e tomemos o exemplo das centrais nucleares francesas - não causaram até hoje quaisquer problemas dignos de nota. Supostamente eles estão activos durante 1500 anos. Mas cientistas de renome, como o ambientalista James Lovelock, concordam que as emissões radioactivas desses resíduos não são superiores às do urânio antes de ser explorado. Todos estamos sujeitos à radiação, uns mais do que outros. Obviamente que quem está mais próximo de uma central nuclear pode estar sujeito a mais radiação.


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