Cada troca de e-mails com Ana da Silva, guitarrista e vocalista das Raincoats, contém uma pequena referência ao clima de Londres. Que estava mau, chuvoso, mas foi melhorando e ao final da semana já se podia sair à rua à-vontade. O hábito de falar sobre o clima é tipicamente inglês, mas o sotaque que ouvimos do outro lado da linha é da Madeira. É com a pronúncia particular da ilha, intacta apesar dos 35 anos passados em Londres, que Ana recorda o passado das Raincoats: banda referência do punk rock feminista (ou feminino) dos anos 80, que a semana passada viu todos os seus discos serem reeditados.
Aos 61 anos, Ana da Silva fez a maior digressão de sempre pelos EUA, mas voltou para casa. Mais concertos, só se surgirem convites - as Raincoats estão à espera que o telefone toque. Longe vão os tempos em que a banda se desintegrava depois de cada concerto, altura em que os egos das suas compositoras, Silva e Gina Birch, fazia faísca. Conheceram-se no final da década de 70, na London's Hornsey School of Art, e frequentaram os mesmos clubes onde despontava o punk rock: Sex Pistols e The Slits, entre outros.
As Raincoats surgiram a seguir a uma conversa de banco de jardim: "Vamos fazer uma banda?". E nem todos os que responderam "sim" sabiam tocar um instrumento - facto que nunca atrapalhou os músicos da altura: "A Gina não tocava nada, aprendeu a ouvir discos de reggae".
Por ser uma banda composta apenas por mulheres, as Raincoats foram rotuladas de feministas. Ainda hoje, artistas como Courtney Love ou Chicks on Speed citam o grupo de Ana da Silva como influência. Mas o feminismo nunca foi a sua luta: "Na minha família sempre fomos muito abertos, não havia diferenças de status entre homens e mulheres", explica Ana, que esteve sem tocar quase uma década. Em 1984 as Raincoats puseram o ponto final à sua carreira, sem saber quando - nem como - surgiria um novo parágrafo. Oito anos depois da dissolução definitiva, um miúdo americano escrevia no livrete de um disco que "o primeiro disco das Raincoats valeu mais do que o meu primeiro milhão de dólares". Esse miúdo era Kurt Cobain (ver caixa) e a vida das Raincoats nunca mais seria a mesma.
Kurt e Courtney, clientes mistério
Depois de desmembradas as Raincoats, Ana da Silva foi trabalhar para um antiquário em Londres, propriedade de um primo, Manuel Castilho (a loja pode ser visitada agora no Príncipe Real: Rua D. Pedro V, n.o 85, Lisboa). Um dia, dois sujeitos descabelados entram na loja a perguntar pelos preços das santas de roca. “Muito caro”, comentou a rapariga, antes de o americano tímido perguntar se ela era a Ana da Silva das Raincoats. E se lhe podia arranjar uma cópia do primeiro disco, riscado pelo uso. Ana disse que não, que não tinha alguma cópia, mas que podia deixar a morada. No papel lia-se “Kurt Cobain”. Ana viria mais tarde a aperceber-se da gaffe e corrigi-la. O líder dos Nirvana contribuiu com uma referência no livrete de “Incesticide” que fez as Raincoats voltarem à ribalta.




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