É um choque frontal. Os milionários directores da Pirelli convidaram o ex-toxicodependente Terry Richardson para fotografar o calendário de 2010. Tudo aconteceu no Brasil, em Maio, mas as fotografias foram guardadas para serem mostradas numa conferência de imprensa em Londres. O i é o único jornal português convidado. Terry, 43 anos, entra na sala com uma camisa xadrez azul e vermelha, óculos de massa, bigode e quatro faiscantes modelos ao seu lado. A sala ferve de expectativa. O 37.o Calendário Pirelli vai ser revelado. É agora.
Há nudez, pois claro. Muito mais do que em 2009 (quando o fotógrafo Peter Beard desejou que "os elefantes [no Botswana] fossem uma metáfora da raça humana"), ou do que no ano anterior (quando Patrick Demarchelier foi à China procurar "o mito oriental da beleza feminina"). Outra inovação é a ausência de implantes de silicone e retoques digitais. Richardson quis um regresso ao "eros puro" e "às imagens dos anos 60 e 70". Está lá tudo: as mangueiras, os calções de ganga, a fruta desfeita sobre o corpo, uma língua a passear-se num sabre. Cabelos num remoinho e rock&roll. No Trancoso, Bahia, entre mosquitos e caipirinhas, Lily Cole, Miranda Kerr, Ana Beatriz Barros e companhia estão semidespidas, ouvem Rolling Stones e Depeche Mode, recebem entre 15 e 17 mil euros e declaram que o calendário que custou dois milhões de euros é a melhor coisa que fizeram na vida. No meio delas, branco e tatuado, às vezes em tronco nu, outras com um lençol branco a fazer de capa, Terry pede às 11 modelos que gritem o seu nome. "Hi, uncle Terry", ouve-se, e todos se lançam à água, a brincar até ser noite numa espécie de fantasia escrita e protagonizada por Terry.
No início do ano, os responsáveis pelo calendário que nasceu em 1964 chamaram o fotógrafo e disseram-lhe: "Faz aquilo que fazes, vai em frente". E ele foi. Pediu uma festa na praia, com direito a porco assado no espeto e caipirinhas. Horas depois, chegou com farinha e ovos para inaugurar uma batalha alimentar. Em pouco tempo havia top models montadas no suíno. "Eles [na Pirelli] ficaram um bocadinho chateados por vê-las a brincar com o porco", revela numa entrevista exclusiva ao i. As fotografias não foram divulgadas. "Passaram-se aqui e ali, ficaram um bocadinho nervosos e não escolheram muitas das imagens. O Gioacchino [Gioacchino del Balzo, director criativo] perguntava: 'O que estás a fazer?' E eu: 'Deixem-me fotografar e logo vemos o que acontece.'" Ainda assim, rejeita que tenha havido censura e percebe as concessões: "Se queres fazer algo com o sistema, tens de fazer parte dele."
E o homem que já fotografou Barack Obama, fez capas da "Vogue" e campanhas da Gucci faz parte do sistema. O seu pai foi durante algum tempo um fotógrafo bem-sucedido, até trocar a mãe de Terry por uma modelo de 17 anos quando ele tinha apenas quatro anos. Aos nove, a mãe ia buscá-lo ao psiquiatra quando uma carrinha da companhia de telefones esmagou o seu Volkswagen e a deixou com danos cerebrais permanentes. "Era uma criança zangada, não há uma única fotografia minha feliz enquanto criança. Estive perdido algum tempo", conta.
Na juventude, as bandas de punk foram o veículo criativo até à chegada dos anos 90. Nessa década, começa a fotografar editoriais de moda e publicidade. Mal iluminados mas bem enquadrados, contrastavam com as grandes produções daqueles anos. Fez escola. No Natal de 2001, tomou cem dólares de heroína, vários Valiums e bebeu uma garrafa de vodca. Vestiu um fato e uma gravata e adormeceu. Alguns amigos encontraram-no a tempo e levaram-no para a reabilitação. Agora, garante, está limpo há oito anos.
Passou a produzir outros trabalhos. Fotografa assistentes a fazerem-lhe sexo oral, pendura os trabalhos nas paredes das galerias e alguém (não ele, que rejeita rótulos) chama-lhe arte. "Dizem que sou porno-chic, rei do lixo, mas para mim as fotos estão no limite da obscenidade e da arte." O fotógrafo, que dizem obcecado pelo cuspo de Hollywood, não gosta de pornografia, acha que é um mundo triste, e por isso faz questão que todos se divirtam nas suas sessões, onde cumpre sempre a regra que repete como um mantra: "Nunca peço a ninguém que faça algo que eu próprio não faria."
É por isso, explica, que montaria o porco no espeto. Mesmo que os homens de smoking italiano (que agora cumprimenta no jantar de gala) tenham dito que esse era o limite. Para eles, o calendário onde já posou Sophia Loren e Naomi Campbell e que oferecem a um grupo restrito de clientes vip em todo mundo não podia incluir aquela imagem. Por isso, lá vão eles, no final da noite, com o laço desfeito, a entrar no Lamborghini, não acreditando que um dia uma top model montou um porco baiano. Até um dia, avisa Terry: "Se calhar, se houver um livro com tudo o que ficou de fora..."




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