Na lista das fantasias mais populares nos EUA, a seguir a ganhar a lotaria, salvar sozinho o mundo de uma catástrofe nuclear e mandar o patrão dar uma curva, está o tornar-se modelo.
Vamos, confesse: costuma verificar a sua aparência no reflexo dos vidros das montras. Barriga para dentro, peito para fora... Nem pensa nos 12 quilitos a mais que transporta consigo, nem na diferença de altura que lhe poupou ter de se colocar entre as girafas para a fotografia da turma. Revê em espírito um vídeo da velha Gisele Bündchen a enganchar uma longa perna diante da outra. Bom, se alguém lhe perguntasse se queria ser modelo, não acha que pelo menos seria capaz de reproduzir esse andar?
Há quase 20 anos que J. Alexander ensina modelos a andar, trabalhando com algumas das grandes, como Nadia Auermann, Claudia Mason e Julia Stegner. O "J" é de Jenkins, que é o apelido. Nascido Alexander Jenkins, no Bronx, a maioria das pessoas trata-o por J ou por Miss J, como é conhecido no programa "America's Next Top Model" (em Portugal passa na SIC Mulher), onde integra o júri.
J foi ele próprio modelo, geralmente transvestido. Começou por dar sugestões às modelos femininas nos bastidores e acabou por ser contratado pela agência Elite para polir as arestas das recém-chegadas. Tem 1,93 m, é preto e homossexual. Resumindo o efeito que tinha nos bastidores nesses tempos, diz que era "uma grande e negra anomalia da natureza vestida de chiffon." Descreve as suas experiências num livro, "Follow the Model", que tem na capa o próprio J vestido de smoking e sapatos, com um joelho provocantemente levantado. (O subtítulo é "Miss J's Guide to Unleashing Presence, Poise and Power", o guia de Miss J para dar livre curso à presença, à postura e ao poder)
Sem pensar muito seriamente sobre as possíveis implicações, perguntei a J se me ensinava a andar como uma modelo. Ele chegou ao meu escritório no dia seguinte com o amigo, James Campbell. Ao subir no elevador, J disse em voz alta: "Bem, estás a ver estas raparigas pretas que aqui estão? Estão de pé, direitas, por saberem que estou no edifício." Duas raparigas negras, na parte de trás da cabina, deram uns risinhos. "Temos de estar fabulosas", disse uma delas.
Só quem tenha vivido sempre no norte do Tibete ou noutro lugar igualmente remoto é que não sabe que as modelos têm uma maneira de andar muito característica. Por exemplo, se Carmen Kass fosse obrigada a andar com um saco na cabeça, saber-se-ia, pelo balançar que ela imprime ao busto e pelo passo de joelho levantado, que se tratava dela. Karlie Kloss, uma nova estrela das passarelas, tem, ao andar, um movimento de cabeça de esfíngica modernidade e um olhar fixo. Segundo J, Coco Rocha, que anda depressa e com o queixo encolhido, "parece ter o nariz sempre a pingar".
FladunkasáurioRecordámos alguns andares famosos, enquanto J os imitava. Era como se ele tivesse uma base de dados incorporada, com o movimento do torso e a expressão facial de cada top model. Sobre Dalma, uma modelo de passarela da década de 1980, disse: "Ela andava assim", parecendo flutuar acima dos arcos dos pés. Ninguém mostrava roupa melhor do que a Dalma. "Se a maneira de andar for exagerada", disse J, "não se repara na roupa." E fez o andar de Naomi Campbell. "É só forte", disse, atirando as pernas para o lado com determinação. Quanto a Brandi Quinones, que teve um momento de êxito na década de 90: "Ela cruzava tanto as pernas que as torcia."
Algumas modelos, continuou, "limitam-se a avançar com um andar desalentado, desconchavado, e com elas funciona muito bem". Eve Salvail, uma modelo muito apreciada nos anos 90, cuja cabeça rapada tinha uma tatuagem, costumava assumir um ar superior quando andava. A novidade, porém, esgotou--se depressa, muito simplesmente porque a moda, embora procure ser chocante ou diferente, acaba geralmente por ceder ao conformismo. Eve foi fonte de inspiração para outras raparigas, que passaram a ter piercings e tatuagens, até que os estilistas e os agentes de casting se fartaram.
Algumas modelos são, pura e simplesmente, demasiado bonitas e bem feitas para não terem êxito. A Claudia Schiffer costumava avançar pela passarela em estilo carro de assalto. "Era um fladunkasáurio", diz J. "Um quê?" "Um fladunkasáurio", repetiu ele suavemente. "E quando finalmente saiu do ovo, acabou por acertar. É esperta. Minha querida, a Claudia Schiffer já nessa altura tinha um plano quinquenal. Toda ela era negócio."
Hoje em dia as modelos são não só mais novas e com ar de robots, mas também parecem levar a profissão desapaixonadamente. Tratam-na como uma actividade com muitas luzes e brilhos, bem paga, que tem de ser suportada. A verdade é que muito poucas modelos têm carreiras longas como as da geração mais velha.
Falou de Billie Blair, uma modelo dos anos 70, imitando os movimentos elegantes dela ao desabotoar o casaco ("Começar sempre de baixo; cria uma linha mais limpa") e atirá-lo com ligeireza para cima do ombro, sem deixar de olhar perfeitamente em frente.
"Faz aquilo da luva, faz a luva", gritou Campbell do fundo da sala. Pus-me a pensar, naturalmente, se haveria um andar à Cathy. J olhou para mim e sorriu. "Isto seria um andar à Cathy", disse. Com um gesto da cabeça, apontou para a parede, a uns 4 ou 5 metros de distância. "Quero que a Cathy ande até ao meio daquela parede, se vire e volte para trás."
De pé nos meus sapatos de cunha Saint Laurent, comprados propositadamente para a ocasião, tentei animadamente fazer o andar cruzado da Gisele, com os braços a ondear aos longo do corpo. J olhava com ar hesitante. "Bom, em primeiro lugar, anda como se lhe doessem as costas", atira. "Olhe para mim." Imitou uma pessoa com andar desequilibrado, ligeiramente inclinada para a frente. "Estou mesmo a andar assim tão inclinada para a frente?" perguntei eu, sabendo perfeitamente que era verdade. Já me vi ao espelho... Ele assentiu com a cabeça. "Também anda com os ombros curvados, o que significa que fica sem pescoço." J avançou de novo ao longo da nossa passarela improvisada (num espaço de circulação fora da sala de imprensa), com as palmas das mãos esticadas e afastadas do corpo. Fiz uma careta. "Oh, não pode ter sido assim tão mau." "Talvez seja de todos os blocos de apontamentos que tem transportado ao longo dos anos", disse ele.
Fiz mais uns quantos percursos na passarela, lembrando-me de manter os ombros para trás e o queixo levantado. J pareceu satisfeito - "foi até bastante bom" - mas deu a entender que havia que fazer pequenos ajustes. Levantou- -se e, apontando para uma parede cheia de quadros, disse-me para imaginar que eram fotógrafos.
"Eis a expressão que devia ter", disse, assumindo um ar calmo, quase beatífica, e começando a andar. "Odeio os meus dentes, odeio o mundo, hoje. Vão-me pagar 10 mil dólares. Estou a morrer de fome. Quero uma sanduíche. Estacou mesmo antes do quadro. Via-se-lhe, no sorriso, uma levíssima sugestão de triunfalismo. "Agora é a sua vez de experimentar", disse. Iniciei o percurso pela passadeira fora, a pensar numa sanduíche, o que era muito fácil mas, no fim do percurso, ultrapassei o ponto de paragem. E falhei a reviravolta. Ri-me (modelo má, modelo feia!). J olhou para mim severamente. "Mas havia uma mulher a atravessar o espaço", disse eu. "Distraí- -me." E era verdade. J descartou o meu protesto com um movimento da mão. "Oh, não se preocupe com ela", disse. "É apenas a rapariga com quem se cruza na passarela. Você é o centro de tudo isto. O importante é a Cathy."
Acho que, para quem tiver 16 anos, uma fome de cão e nervos de coelho, essas palavras terão o efeito desejado. E o J seria a primeira pessoa a dizer que uma passarela é irreal. Ainda assim, aprendi duas coisas. Havia uma razão para as nossas mães nos moerem o juízo com aquilo de andarmos direitas. É que não vemos o que os outros vêem. Por isso, da próxima vez que um tipo com 1,93 m e de lenço na cabeça lhe der um abraço e - oooh! - lhe endireitar os ombros ao fazê-lo, não entre em pânico. Você é o centro de tudo.
Veja aqui alguns conselhos de moda e postura, de Miss J à The CW Source.




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