Memória
Trautmann. De prisioneiro alemão a herói inglês no City - vídeo
por Rui Tovar, Publicado em 23 de Novembro de 2009
Capturado por um soldado inglês que lhe ofereceu chá, o pára-quedista alemão virou futebolista após a 2.ª Guerra Mundial e estreou-se há 60 anos
Robinho (43 milhões de euros), Tevez (29), Adebayor (29), Lescott (27,5), Jô (24), Santa Cruz (21,2), Anelka (19,8), Touré (18,7), De Jong (18) e Bellamy (15,5). O top 10 das contratações do Manchester City mete medo e impõe respeito aos rivais mas é só. Os resultados pura e simplesmente não aparecem. Neste caso, mais vale recordar outros tempos (1949) em que o amadorismo ditava leis. Em que o guarda-redes alemão Bert Trautmann começava a construir uma lenda em Inglaterra. Foi há 60 anos.
Contratado a custo zero a 7 de Outubro de 1949, Trautmann foi lançado às feras no mês seguinte. A expressão encaixa na perfeição porque Trautmann era um ex-prisioneiro alemão dos ingleses na 2.a Guerra Mundial e estávamos em 1949, apenas quatro anos depois do fim da dita cuja.
Agricultor em Bremen, Trautmann alistou-se nos nazis como operador de rádio. Mas não se deu bem e transferiu-se para Spandau, onde se tornou pára- -quedista. Nesta função arriscada, o jovem alemão foi capturado três vezes pelas tropas inimigas. Depois dos russos e da Resistência Francesa, dois soldados norte-americanos apanharam- -no escondido num celeiro e pediram-lhe que saísse de mãos no ar. Trautmann, temendo pela vida, fugiu, desesperado, ganhou avanço sobre os inimigos e saltou uma vedação que o afastava dos norte-americanos. Por azar, no entanto, rebolou até aos pés de um soldado inglês que o "cumprimentou": "Olá, Fritz, vai uma chávena de chá?"
Real Interrogado duas vezes, Trautmann foi feito prisioneiro em Ostend, na Bélgica, até ser transferido para Essex, onde o catalogaram como prisioneiro C, que significava nazi. Depressa passou a B (não-nazi), o que lhe valeu a ida para um campo de concentração em Ashton-in-Makerfield. Lá, exibia-se como médio nos jogos de futebol organizados entre prisioneiros. Num deles, lesionou-se na perna direita e trocou de posição com o guarda-redes Gunther Luhr.
As exibições de Bernd Trautmann (Bert, porque os ingleses não conseguiam pronunciar correctamente Bernd) eram de tal forma espantosas que foi contratado pelo St Helens (3.a Divisão) em 1948, quando saiu da prisão.
Menos de um ano depois, era contratado pelo Manchester City para substituir o carismático Frank Swift. À chegada, o capitão Eric Westwood, um veterano da Normandia (2.a Guerra Mundial), fez uma declaração pública: "Neste balneário não há guerra." Não chegou e os adeptos do Manchester City assinaram uma petição com 20 mil assinaturas a exigir a saída de Trautmann do plantel. Só a comunidade judaica de Manchester ajudou o pobre Trautmann, que sofreu nos primeiros tempos, com dez golos sofridos nos primeiros dois jogos (3-0 e 7-0). Em Janeiro de 1950, com o Fulham, em Londres, onde morava a nata dos jornalistas ingleses, Trautmann deu um recital de grandes defesas e saiu aplaudido do estádio. A partir daí, Bert fez 545 jogos pelo clube até 1964 e ganhou uma Taça de Inglaterra em 1956. Outros tempos...
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