"Digas o que disseres, não digas que és banqueiro"
Publicado em 07 de Maio de 2009
Antes eram só ricos. Agora têm outra característica: a vergonha
Ameaças de morte por enforcamento com cordas de piano, casas e carros vandalizados, agressões em ginásios e recados escritos com as palavras "Isto é só o princípio". Os banqueiros e executivos de empresas financeiras nunca foram amados, mas sempre gozaram de uma aura de respeitabilidade e prestígio social – até agora. A hostilidade contra a banca é mais dura nos Estados Unidos e no Reino Unido, dois epicentros da crise financeira, mas em Portugal os executivos do sector já sentem a mudança de atitude na pele.
"Depois dos grandes casos internacionais e de outros mais próximos de nós, as pessoas olham de lado, com desconfiança. Eu já senti isso, por exemplo em restaurantes – estava a almoçar e senti-me observado", confessa ao i José Maria Ricciardi, presidente do Banco Espírito Santo Investimento. "É aceitável que as pessoas tenham este tipo de reacção. Sentem-se enganadas e pensam: 'Sei lá se este também não anda a roubar?'", acrescenta.
Outras vezes, a diferença de atitude é manifestada de forma subtil, em ocasiões sociais, até entre amigos. "Ainda outro dia me diziam num jantar: 'Say what you want, just don't say you're a banker!' [diz o que quiseres, mas não digas que és banqueiro], conta Abdool Karim Vakil, presidente do Banco Efisa. "Sei que existe esse sentimento de desconfiança sobre os banqueiros - e até já se tornou, a certo ponto, uma anedota", comenta.
A onda de contestação à banca deve-se à percepção do papel que os excessos e a má gestão no sector financeiro tiveram na origem da actual recessão mundial, como reconhece o presidente do Santander Totta. "Sinto, em termos gerais, que existe um nível de crítica, talvez de desconfiança, talvez de suspeita. É uma pena, mas é compreensível porque houve coisas muito mal feitas", explica Nuno Amado.
Para muitos (portugueses incluídos), as injecções de capital e os avais concedidos pelos governos - para tentar descongelar o mercado de crédito, um passo essencial para a recuperação da economia - são ajudas directas aos responsáveis pela crise. Os mesmos que aparecem como não estando dispostos a abdicar dos seus bónus.
Depois, há a complexidade do sector e a sua falta de transparência que, somadas à acção do poder político, tornam a banca num sector cujo funcionamento é mal compreendido. "Há a imagem de que a banca não tem finalidade económica e de que existe uma separação entre a vida financeira e a vida real", comenta Paulo Teixeira Pinto, ex-presidente do BCP.
As irregularidades na banca em Portugal – os casos do BCP, do BPN e do BPP – vieram também ampliar a desconfiança, inflamada pelo contexto de subida do desemprego. "A imagem de vencedores deixou de corresponder à realidade", admite João Rendeiro, ex-presidente do BPP, um pequeno banco de investimento, investigado pelo ministério público e confrontado com processos postos pelos seus clientes. Rendeiro garante que não sofreu represálias:"Eventualmente pensaram, mas nunca ouvi o que quer que fosse na rua."
De resto, em Portugal a pressão social por enquanto não se tem traduzido em ameaças ou violência aberta. Os bancos não reforçaram a segurança dos administradores que, explicou ao i fonte de uma empresa de segurança privada, normalmente passa pela acumulação de funções: o motorista é guarda-costas. Nos EUA e Reino Unido, onde foram identificadas pessoas que receberam bónus milionários, instituições como a seguradora AIG já recorreram a segurança privada.
Porque as instituições portuguesas ficaram fora do colapso internacional, a desconfiança não gerou corridas aos bancos. Contudo, antigos responsáveis por instituições bancárias alertam para o risco causado pela exploração política da contestação social sobre a banca. "Esta imagem está a minar o activo intangível mais valioso destas instituições: a confiança. Não é possível haver recuperação da economia sem confiança no sistema financeiro", garante Paulo Teixeira Pinto. com A.F. S. , J. P. e S.O.
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