"O petróleo e o gás são a nossa droga", garante Dimitri Medveved, o presidente russo que trocou de cadeira com Vladimir Putin há um ano. Há dinheiro a correr na Rússia, muito dinheiro. E uma letargia económica que continua a condicionar um país altamente dependente dos seus recursos energéticos. Em 1989, no ano em que o império caiu, Medvedev ouvia Scorpions e a música que se tornou um hino: "Wind of Change".
Comemorou há poucos dias o 20.o aniversário da queda do Muro na companhia de outros líderes mundiais, em Berlim. Onde estava no dia 9 de Novembro de 1989?Não me lembro, mas ainda recordo com grande nitidez a rapidez com que as nossas vidas mudaram. Eu era professor-assistente na Universidade de S. Petersburgo na altura e percebi que esse acontecimento iria afectar não só os alemães, mas também toda a Europa e, em última análise, o destino do meu país. O "Wind of Change" dos Scorpions tornou-se um hino aos tempos que se viviam. O Muro de Berlim era um símbolo da divisão do continente e a queda do muro uniu-nos de novo. Algumas das esperanças que tínhamos na altura concretizaram-se, outras não.
Vladimir Putin não foi tão reservado nos comentários que teceu. Chamou ao colapso da URSS "a maior catástrofe geopolítica do séc. XX"... Ele não lhe associou o nome de Gorbachev, pelo que, nessa perspectiva, foi tão reservado como eu. O colapso chocou toda a gente que vivia na União Soviética, independentemente de verem a desintegração do Estado como uma catástrofe pessoal ou como consequência do domínio dos bolcheviques. E foi, de facto, muito dramático: um povo que estava unido há décadas - e, em alguns casos, há séculos - deu consigo subitamente em países diferentes. Os contactos com a família foram cortados.
Foi sem dúvida uma tragédia, mas terá sido a maior? A Segunda Guerra Mundial não lhe ficou atrás. Morreram dezenas de milhões de pessoas. E não foi a Revolução Russa de 1917 também uma catástrofe? Desencadeou uma guerra civil em que familiares e amigos se mataram uns aos outros. O colapso da União Soviética representa sem dúvida um dos acontecimentos mais dramáticos do séc. XX, mas não teve consequências tão sangrentas.
Há alguns dias, referiu numa mensagem de vídeo publicada na Internet que "morreram milhões de pessoas em resultado do terror" na União Soviética antes da guerra, mas 90% das pessoas entre os 18 e os 24 anos não sabiam praticamente nada do assunto. O que diz isso do estado da sociedade russa quando o senhor, na sua qualidade de presidente, tem de recordar aos seus conterrâneos que José Estaline foi responsável por um assassínio em massa? Todas as figuras históricas são veneradas por alguns e rejeitadas por outros, e isso aplica-se também a Estaline. No meu blogue, defini claramente as acções de Estaline como crimes. Há cinquenta milhões de russos a acederem regularmente à internet, ou seja, um terço da população russa. Recebi reacções de milhares de pessoas. Algumas escreveram que o chefe de Estado tinha afirmado claramente a sua posição em relação à opressão e a Estaline. Já outras se recusaram a aceitar o meu ponto de vista. Escreveram que o nosso país tem de agradecer a Estaline o desenvolvimento da economia e os serviços sociais gratuitos, e disseram que não havia praticamente criminalidade no tempo dele. Dizem que os actuais líderes russos deveriam começar por igualar essas realizações.
Só se pode falar de sociedade madura quando houver um reconhecimento colectivo de que Estaline foi um ditador...Desde a perestroika, eu e muitos dos meus compatriotas temos uma visão crítica de Estaline. Isso deve-se a Gorbachev e aos políticos que conduziram os destinos do país no tempo dele. Tiveram a coragem de publicar documentos prejudiciais à imagem do governo e do Partido Comunista. Há ainda gente mais velha e até alguns jovens com tendências esquerdistas, que acreditam que o papel de Estaline foi completamente positivo, mas são uma minoria.
O legado pós-soviético também passa pelas relações com outras repúblicas ex-soviéticas. De acordo com instruções suas, não há actualmente embaixador na Ucrânia e há regularmente conflitos com a Bielorrússia. Porque tentam constantemente resolver os problemas com os vizinhos recorrendo a posições de força? Dizer que só será enviado um embaixador quando o presidente de outro país for deposto... é uma postura perfeitamente única na Europa.
Há muitas coisas perfeitamente únicas neste mundo. Todas estas dificuldades foram criadas por um único homem, o actual presidente da Ucrânia. Trata-se de um acto conflituoso que exige uma reacção firme. Vão realizar-se em breve eleições presidenciais na Ucrânia. Espero sinceramente que os políticos que acederem ao poder sejam mais pragmáticos na abordagem à Rússia. E então, sim, haverá de novo um embaixador russo em Kiev.
Mas será que se avizinha uma nova ronda da "guerra anual do gás natural"? Há uns dias, a Ucrânia informou-nos de que não tinha fundos para pagar o nosso gás natural, apesar de, após o conflito de Janeiro, termos acertado as regras do jogo: se se vissem em apuros financeiros, eles procurariam obter empréstimos com antecedência, sem o que nós só forneceríamos gás à Ucrânia se fosse pago antecipadamente. Mas está a decorrer uma campanha eleitoral em Kiev, em que cada um procura mostrar-se mais fino e hábil do que o concorrente. Desejo à Ucrânia estabilidade e capacidade de agir. Nessa altura, a cooperação ficará facilitada para a Rússia e a UE.
Os 18 anos desde o colapso da União Soviética constituem, de facto, um intervalo de tempo relativamente curto. Num artigo recente, descreveu o estado da sociedade russa, caracterizando-o como atraso económico, corrupção enraizada, crença cega da população na autoridade e tendência para atribuir a culpa dos problemas a países estrangeiros. Talvez a Rússia não devesse apontar sempre um dedo acusador aos outros? Ainda estamos a tentar construir uma sociedade civil moderna. Há 18 anos éramos ingénuos e muitas das nossas expectativas ilusórias. Do topo da liderança política até às administrações locais, estamos atolados em corrupção e numa burocracia asfixiante. Mas somos hoje mais maduros, sabemos melhor como deve ser o nosso país e qual o lugar a que tem direito.
Mas estará a Rússia mais madura? O vosso ministro do Interior, Rachid Nurgaliev, declarou, ao velho estilo soviético, que tencionava eliminar a corrupção no prazo de um mês. É de esperar que o ministro do Interior tenha uma ideia clara de como combater a corrupção, coisa que não se pode, certamente, conseguir num mês. Penso também que ele queria referir-se aos crimes mais graves que ocorreram no próprio ministério que encabeça. Erradicar a corrupção vai levar anos. Ela também existe noutros lugares, mas no nosso país adquiriu formas particularmente repugnantes. A corrupção já existia no tempo dos czares e durante a era soviética; só que estava mais escondida. Estaline reduziu-a ao mínimo. Já falámos sobre os métodos que ele usou. Em 1991, quando tiveram início as mudanças políticas e económicas, a corrupção desabrochou. O advento de mais liberdade traz sempre mais vantagens e desvantagens. Os funcionários públicos tiveram oportunidade de controlar fluxos financeiros; aceitam subornos e investem pessoalmente em novos negócios.
Como tenciona combater eficazmente esse flagelo? Aprovámos agora leis que nunca existiram nos mil anos de história da Rússia. Criámos uma comissão presidencial para combater a corrupção e apelei aos funcionários públicos que revelassem os seus rendimentos e os dos seus familiares. Estão a respeitar essas disposições, embora não o façam de muito bom grado.
A democracia e o primado do Direito são também medidas da maturidade de uma sociedade. Até onde foi o seu país neste particular, considerando que ocorreram, mais uma vez, casos de fraude muito óbvios durante as eleições municipais de Outubro? E considerando que há muitos casos de assassínio por resolver, como o da jornalista Ana Politkovskaya? Está a fazer a pergunta errada. O caso Politkovskaya foi investigado exaustivamente. Falei acerca disso com o director da agência de investigação há apenas alguns dias. Os acusados foram considerados inocentes pelo tribunal.
Reformulemos então a pergunta: não houve uma única condenação final no que diz respeito aos muitos assassínios espectaculares que foram perpetrados recentemente. Cite-me outros casos.
Nullum crimen sine lege, não há crime sem lei: só posso comentar casos concretos.
E quanto à jornalista Anastásia Baburova, morta a tiro em Janeiro na companhia do advogado de direitos humanos Stanislav Markelov nas ruas de Moscovo? Ou da activista de direitos humanos Natália Estemirova, raptada em Julho na Chechénia e executada no próprio dia com vários tiros na cabeça? As investigações ainda estão em curso no que diz respeito ao caso Estemirova. A investigação dos assassínios de Markelov e de Baburova levou à prisão de dois suspeitos.
Num artigo recente que escreveu, intitulado "Avante, Rússia", falou do "humilhante atraso" económico do seu país. Por que razão não conseguiu a Rússia ultrapassar a sua dependência em relação aos recursos naturais desde o fim da União Soviética? Porque as pessoas ficam rapidamente agarradas às drogas. O comércio do petróleo e do gás é a nossa droga. As pessoas não se fartam dela, mesmo quando os preços disparam. Há cinco anos, quem poderia imaginar que o barril de petróleo pudesse custar 150 dólares? Comprar e vender recursos naturais é fácil e leva à ilusão de estabilidade económica. Há dinheiro em circulação, quantidades consideráveis de dinheiro. Os problemas mais agudos podem ser resolvidos eficazmente com esse dinheiro. Não são precisas reformas económicas; não é preciso encarar a necessidade de diversificação da produção. Poderíamos libertar-nos desta letargia se fôssemos capazes de aprender as boas lições que a crise nos deu.
Isso não parece estar a acontecer, o que justamente explica por que razão muitos russos troçam das críticas do seu presidente sobre o estado da nação. Vêm um fosso muito grande entre as expectativas e a realidade. Vejo, de facto, que há muito quem fique sentado à espera de mais megalucros. Isso pode acontecer durante algum tempo. Mas não disponibilizar dinheiro para investir na indústria e na agricultura não nos leva a lado nenhum. E isto apesar de o sector energético sofrer reviravoltas a intervalos regulares e ninguém saber se em 2050 vamos precisar das mesmas quantidades de petróleo e de gás que hoje.
Dado que o seu país não fez progressos no campo da modernização da economia, foi particularmente atingido pela crise. A culpa é normalmente atribuída ao governo. Em situações idênticas, os antigos presidentes russos Vladimir Putin e Boris Yeltsin demitiam sempre o primeiro-ministro. A dependência da nossa economia em relação aos recursos naturais não surgiu durante o mandato presidencial de Putin, mas sim há 40 anos. Isso vai levar muito tempo a mudar. Olhe-se para um mapa da Rússia, analise-se a nossa balança comercial e os nossos excedentes de exportação, leve-se em conta as obrigações sociais que temos... e depois atente-se na quantidade de receitas tributárias geradas pelo petróleo e pelo gás natural. Aí, percebe-se tudo.
Falemos da sua relação com Putin. Continua a ser um mistério a maneira como o presidente da Rússia e o seu primeiro-ministro se relacionam. Estão a promover uma dupla estratégia para apoiar o sistema actual? Putin agrada aos sectores mais tradicionalistas da sociedade, e o senhor à minoria liberal e ao Ocidente? Não há dúvida de que a nossa parceria funciona sem problemas. Isto apesar das muitas previsões de que andaríamos de candeias às avessas em pouco tempo. Claro que cada um de nós tem as suas ideias e estilo. Em circunstância alguma quereria que acabássemos por nos parecer com os gerontes do Politburo do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, que subiam as escadas do mausoléu de Lenine envergando sobretudos e chapéus exactamente iguais, de tal maneira que era impossível distinguir Leónidas Brezhnev de Mikhail Suslov (membro importante do Politburo).
O recente comentário de Putin acerca da próxima eleição presidencial causou grande espanto a muita gente no Ocidente. Quando lhe perguntaram qual de vós se vai apresentar ao eleitorado, disse que ambos iriam "sentar-se e chegar a um acordo" quanto a 2012. O antigo presidente Gorbachev ficou chocado. Disse que se houvesse acordo a alcançar seria com o eleitorado. Eu recomendaria ao sr. Gorbachev uma leitura mais atenta das palavras de Putin. Ele apenas disse que, se Vladimir Putin e Dmitri Medvedev forem ainda figuras políticas merecedoras do apreço do público na altura da próxima eleição presidencial, nós os dois nos sentaríamos e decidiríamos quem se candidataria, isto para que não nos prejudicássemos mutuamente. Ele não disse que iríamos decidir entre nós quem seria o próximo presidente. Isso seria, evidentemente, ridículo.
Entretanto, perfilam-se vários desafios políticos. No dia 5 de Dezembro expira o tratado START sobre controlo de armamento. O presidente Barack Obama dos EUA sonha já com um mundo livre de armas nucleares. Ele falou consigo sobre o modo como queria atingir esse objectivo? Quem mais o faria, senão nós próprios? O maior potencial nuclear está presentemente nas mãos da Rússia e dos EUA. Se não encararmos esta questão, não haverá desarmamento. Agora estão reunidas todas as condições para concordarmos com limites mais apertados e definirmos medidas de controlo e fiscalização. No fim do ano, poderemos estar a assinar um documento vinculativo.
Está a par dos receios do Ocidente quanto a um Irão nuclear. Como vai a Rússia agir neste caso? Até que ponto tenciona facilitar a vida a Teerão, fornecendo armamento e apoiando a prossecução do programa nuclear iraniano? O Irão tem o direito de fazer uma utilização pacífica da energia nuclear, sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica. Não há qualquer objecção quanto a isso. O país tem apenas que respeitar os regulamentos aplicáveis; não pode tentar esconder quaisquer instalações nucleares. A descoberta da nova central em Quom é alarmante. É também surpreendente que só agora essas informações tenham vindo a público. Se as negociações relativas ao enriquecimento do urânio iraniano para fins pacíficos tiverem êxito, teremos todo o prazer em fazer parte desse programa.
E se não tiverem? Teoricamente, ainda estão todas as opções em cima da mesa. Falei com Obama em Nova Iorque acerca disto. Não quero que tudo acabe em sanções. Mas se as coisas não avançarem, é um cenário que não está posto de parte.
E quanto ao fornecimento russo de armas? Só forneceremos armas para fins defensivos; nada de armas ofensivas.
Pensa que há o perigo de o Ocidente sofrer, no Afeganistão, o mesmo destino que a União Soviética que, depois de nove anos de guerra e 15 mil baixas militares, retirou as suas tropas do Hindu Kush em 1989? Sim. Se a aliança ocidental não conseguir ajudar o Afeganistão a estabilizar um Estado funcional, nunca haverá estabilidade, independentemente do número de efectivos estrangeiros destacados para lá. O facto de Hamid Karzai ter sido agora reconhecido como presidente eleito cria estabilidade adicional. Não estou a falar da evolução dos acontecimentos durante a eleição, em parte porque, na sequência da nossa conversa sobre o sistema eleitoral do meu país, não quero criticar nenhum outro. Mas não posso deixar passar em branco o tema sem fazer uma observação. Os nossos colegas americanos louvaram as eleições no Afeganistão e no Iraque como um triunfo da democracia. Nessa óptica, peço então que reconheçam as eleições realizadas na Rússia do mesmo modo.
Senhor presidente, no princípio desta entrevista disse que, desde a queda do Muro de Berlim, muitas das suas expectativas e dos seus compatriotas foram concretizadas, e que outras não o foram. A que expectativas se refere? Mal falei das coisas positivas. Mas não foi possível redefinir o lugar da Rússia na Europa. Depois do desmembramento do Pacto de Varsóvia, tínhamos esperança que se verificasse um maior nível de integração. Mas que recebemos nós? Nada do que nos foi garantido. Nomeadamente, que a OTAN não se iria expandir incessantemente para oriente e que os nossos interesses seriam tomados em consideração. A OTAN continua a ser um bloco militar com mísseis apontados para o território russo. Em contrapartida, gostaríamos de ver uma nova ordem europeia em termos de segurança.
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