Vanessa regressa
Aparadores e vidro em pó
por Ana Sá Lopes, Publicado em 20 de Novembro de 2009
Não somos todos - eu, a Vanessa, o leitor - muito mais do que aparadores em trânsito, empurrados a subir e a descer escadas, a entrar em carrinhas de mudanças. Dou uma olhadela para o lado e vejo em bolandas um aparador centenário que veio de uma casa antepassada.
À frente, um outro saído do Santos Design District.
A Vanessa é um aparador Moviflor que tropeça num aparador Ikea - às vezes, em diferentes modelos Ikea na mesma estação.
Todos os aparadores se enchem de louças de família, vidros básicos, cristais da Boémia, swarovskis e d'Arques, porcelanas holandesas, vistas alegres, faianças grosseiras e louça das Caldas. Uns aparadores são melhores contentores do que os outros: para o bem e para o mal, há uma diferença entre os que ao primeiro encontrão deixam cair a louça toda e os que aguentam os primeiros embates e mesmo com a madeira a ranger seguram os materiais. Parecem-nos seguros os aparadores sólidos e pesadões, mas também esses deixam um rasto de vidro em pó, às vezes quase clandestino.
Vimos do pó, ao pó voltamos e, enquanto aparadores aos tombos, vamos espalhando pó de vidro por aí. A Vanessa e as pessoas civilizadas acreditam na bondade da reciclagem, mas o pó não cabe no verde, nem no azul ou no amarelo.
O pó é o pó: acumula-se em todos os bocados livres e desaparece para debaixo da terra, onde todas as mágoas vão morrer.
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Artigo: Aparadores e vidro em pó
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