PRIMEIRO PLANO

Uma história de Portugal para adultos

por Paulo Pinto Mascarenhas, Publicado em 20 de Novembro de 2009   
Reza a história de todos conhecida que José Sócrates chegou a primeiro-ministro e Armando Vara a arguido do processo Face Oculta
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Vara e Sócrates tornaram-se amigos próximos em 1987, no Parlamento
Na sua nova e recomendável "História de Portugal", o historiador Rui Ramos dedica as últimas páginas ao que chama "Uma nova época de reformas". Lembra o académico, entre outros dados objectivos, que um dos maiores trunfos da democracia portuguesa foi o desenvolvimento: a economia nacional reduziu a distância em relação à média europeia 39 pontos percentuais entre 1961 e 1997.

Portugal era então considerado um "país desenvolvido", depois de décadas em vias de o ser. A esse crescimento não foram alheios os governos de Cavaco Silva, primeiro-ministro de 1985 a 1995, com uma política de obras públicas - uma espécie de novo fontismo, a "política do betão" - que ajudou a aumentar os quilómetros de auto-estradas de 211 em 1989 para 797 em 1997.

Para o efeito, foram decisivas as transferências financeiras da Comunidade Económica Europeia, o investimento estrangeiro e a baixa do preço do petróleo. Eram tempos bem diferentes dos que se vivem hoje. A queda do Muro de Berlim em 1989 e a implosão da União Soviética em 1991 favoreciam os discursos em defesa da iniciativa privada e da economia de mercado na Europa e no mundo.

Apesar de esta narrativa ser seguida em Portugal pelos partidos do chamado arco governamental - PS, PSD e CDS -, o certo é que, ao desenvolvimento alcançado, correspondeu sempre uma expansão do funcionalismo público e da presença do Estado na economia e na sociedade, também ao nível local, através do poder autárquico.

Mesmo com as sucessivas privatizações, persiste aquilo a que muitos chamam promiscuidade entre o Estado e as empresas. Ex-ministros e ex- -secretários de Estado ocupam lugares de topo no sector privado logo que saem do governo em função da rede de contactos entretanto obtida.

É neste caldo de cultura política que, como conta outro livro menos recomendável, de seu nome "Sócrates - O Menino de Ouro do PS", vários jovens turcos socialistas chegam ao poder.

António Guterres, que tinha vencido sem maioria absoluta as eleições de 1 de Outubro de 1995, chama ao governo alguns dos quadros que o apoiaram na conquista do PS. Entre eles, constavam Armando Vara e José Sócrates. Vara e Sócrates tornaram-se amigos próximos em 1987, no Parlamento. Não dispondo de qualquer experiência de governo, Guterres "distribuiu os seus ases por secretarias de Estado".

Reza a história de todos conhecida que José Sócrates chegou a primeiro-ministro e Armando Vara a arguido do processo Face Oculta. Num momento de descontrolo das contas públicas - como comprova o anúncio de um orçamento "redistributivo" pelo ministro das Finanças - e com o desemprego a bater todos os recordes, atingindo 547 mil portugueses, o que as escutas a Vara mostraram é que o Portugal de 2009 é na prática política o mesmo Portugal de 1995 e de 1985. A Face Oculta revelou-se em todo o seu esplendor.

Jornalista


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