Gripe A

"Os pais devem ficar felizes por poderem vacinar os filhos"

por Sílvia De Oliveira, Publicado em 20 de Novembro de 2009   
Dirige a pediatria de Santa Maria e é um dos mais prestigiados pediatras do país. Em entrevista ao i, João Gomes-Pedro explica porque as crianças devem ser vacinadas contra a gripe A
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No seu consultório em Lisboa, na zona das Laranjeiras, onde passa ?demasiadas horas?, Gomes-Pedro tem tentado acalmar a ansiedade dos pais que procuram conselhos
A pediatria ajudou-o a "olhar a vida com mais doçura, com mais carinho, com mais amor", disse um dia Gomes-Pedro. Licenciado em 1964 pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, o médico pediatra é um nome conhecido dos pais portugueses. É também um dos pilares da Faculdade de Medicina e dirige os serviços de pediatria de Santa Maria. Em entrevista ao i, responde às dúvidas sobre a gripe A, de bata vestida.

Todos os dias surgem opiniões contraditórias sobre a vacinação contra a Gripe A. As crianças devem ou não ser vacinadas?

Hoje em dia não nos guiamos por opiniões, mas por evidências científicas. Se existem evidências científicas que para determinada patologia o melhor é o medicamento "A", então é o medicamento "A" que deve ser tomado, em Nova Iorque, em Londres ou em Lisboa.

Mas, neste caso, as evidências científicas são quase nenhumas.

Não existem evidências científicas porque a vacina é nova. Não podemos dizer se é boa ou não. Mas a minha filosofia é a da medicina preventiva. Não vamos desperdiçar as vacinas que temos, quando deveríamos ter 70 ou 80. Eu vacinei-me!

Porquê?

Porque temos que acreditar no sistema. Se não acreditarmos na tecnologia com que são feitas as vacinas, então tenho que fechar as portas do meu consultório.

O que diz aos pais que o escolheram para pediatra dos seus filhos?

O conselho que lhes dou é que vacinem os seus filhos e que fiquem muito felizes pelo facto de as crianças poderem estar a ser vacinadas numa fase prioritária. As crianças têm que estar à frente numa sociedade civilizada, em todas as circunstâncias: na alimentação, na educação e claro está, na saúde. A prioridade tem que ser sempre, sempre as crianças. E as vacinas têm uma metodologia científica. Porque é que eu hei-de duvidar disso?! Umas são feitas em menos tempo que as outras, mas não admito que os cientistas tenham passado fases essenciais na produção desta vacina.

Mas os riscos apontados são, sobretudo, em relação ao adjuvante utilizado na vacina escolhida por Portugal.

Voltamos ao mesmo, já parece um Pai Nosso. Não há evidência científica que mostre que o outro adjuvante utilizado na outra vacina seja melhor ou pior que o nosso. Talvez daqui a uns tempos se venha a concluir que afinal o outro, ou mesmo um terceiro seria melhor.

E mesmo assim vale a pena correr o risco?

O risco vacinal existe, é uma probabilidade mas quando somos colocados perante uma relação custo-benefício não invalida o acto de vacinar.

As mortes recentes de fetos após a vacinação das grávidas pode estar relacionada com a vacina?

Não sei responder a isso. Mais uma vez, não existe evidência científica para concluir que estas mortes ocorreram por causa da vacina. Não houve tempo para concluir, para validar as coisas pelos experts. Esse trabalho ainda não foi feito.

E afinal a Gripe A é grave ou não?

A doença é leve, mas mesmo assim não arrisco dizer aos pais para não vacinarem os seus filhos, até por uma questão moral. As complicações existem, são raras mas existem. E depois, imagine que acontecia alguma coisa complicada e vinham acusar-me de ter desaconselhado a vacina. Quem é que assume esta responsabilidade?!

Mas quando aconselha a vacina é só para evitar esse risco pessoal ou é porque acredita realmente nos benefícios da vacinação?

Se não existem evidências científicas, qualquer um pode mandar uma boca. A atitude hoje em relação às vacinas deve ser a de confiar. Eu gostava de ter para mim 80 vacinas, uma para a SIDA, várias para cada tipo de cancros, outra para a tuberculose. Mas só temos sete... a atitude da medicina é preventiva, de profilaxia, de cuidado e prevenção face às doenças contagiosas.

Como tem sido o seu dia-a-dia no seu consultório?

Recebo 80 pessoas por dia a perguntar se devem vacinar ou não os seus meninos. Está a ser muito duro para os médicos. Temos que ver os meninos, dorme-se pouco, comer, não se come. Os pais estão ansiosos. Tem sido um volume de trabalho enorme.

Tem recebido casos complicados?

Tenho tido casos de suspeita, que depois se vêm a confirmar através das análises como sendo gripe A. Verificou-se uma certa explosão por causa da abertura das escolas, mas até agora não tive no meu consultório nenhum caso muito grave. Esses ter-se-ão passado no Hospital [de Santa Maria].

A situação vai agravar-se?

Penso que ainda não se atingiu o pico máximo. Uma doença pandémica evolui por fases, por ondas, como um tsunami que demora a chegar à praia.


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