Ciências forenses
Ossos. Como devolver a identidade a um cadáver
por Inês Cardoso, Publicado em 20 de Novembro de 2009
Idosos desaparecidos representam metade dos casos estudados pela antropóloga forense
Até há poucos anos, soletrar a palavra "antropologia" e descrever análises demoradas de esqueletos dificilmente pareceria sedutor. A doutora Bones (ver caixa) tem boa parte da culpa de fazer a antropologia forense estar na moda. Embora entre ficção e realidade existam diferenças evidentes, como explica Eugénia Cunha, que anualmente estuda cerca de 20 cadáveres para identificação.
Num país com poucos crimes cinematográficos, os idosos desaparecidos são o grupo mais estudado pela professora universitária, que colabora com o Instituto Nacional de Medicina Legal. Tem a seu cargo a área de influência da delegação do Sul - a que tem mais casos a nível nacional, seguida da do Centro e, por último, da do Norte. "As pessoas com mais de 60 anos, por vezes desaparecidas por muito tempo, representam metade dos casos que analiso", explica Eugénia Cunha.
Ao contrário do que acontece com Temperance Bones, em Portugal o antropólogo nunca vai ao terreno. Recebe os cadáveres em gabinete e nem sempre conta com pormenores do ambiente em que foram encontrados. Não é polícia, mas ajuda pensar como se fosse. "Pormenores como a posição ou o estado da roupa são o primeiro aspecto a que estamos atentos." Quando se recebe um esqueleto, devolver-lhe a identidade torna-se o único objectivo.
A tarefa ficaria facilitada se as bases de dados da Polícia Judiciária fossem melhoradas, alerta Eugénia Cunha. Em regra, quando alguém desaparece as informações recolhidas dão conta da idade, da cor do cabelo e dos olhos, da roupa que vestia a última vez que foi visto e pouco mais. "Elementos como a altura, intervenções cirúrgicas e características físicas podem ser cruciais numa identificação." Assim foi num dos seus últimos casos, em que uma placa cirúrgica deu uma ajuda preciosa para reconhecer uma mulher morta há nove anos.
Tanto tempo causa espanto, mas não é engano. São frequentes os casos de idosos que ficam desaparecidos por longos períodos. A antropóloga recorda outro caso, de uma mulher encontrada na zona de Abrantes em 2005 e desaparecida desde 2003. Esteve tanto tempo em contacto com a vegetação que os ossos já tinham ganho uma tonalidade esverdeada.
Nessa luta contra o esquecimento, a roupa é um elemento de identificação falível. "Há casos em que basta a roupa, com aventais e outras peças características, para se perceber que é uma pessoa de idade. Noutros decorre tanto tempo que já nem a família tem certeza sobre a roupa usada."
Solidão. Isto quando há família, claro. O que nem sempre acontece. Eugénia Cunha admite que cada investigação lhe deixa uma marca. Seja porque há familiares "muito interessados na identificação", seja porque se trata de uma pessoa sozinha no mundo. Por quem já ninguém procura. Com o acentuado envelhecimento da população, a antropóloga defende que faz sentido "uma atitude preventiva" na organização das bases de dados.
Nos casos que lhe chegam às mãos, consegue uma taxa de identificação positiva a rondar os 50%. O que não representa um ponto final imediato: entre a entrega de um parecer às autoridades, o contacto com os familiares e a devolução de um corpo podem decorrer anos. Por maioria de razão se forem estrangeiros. Em 2007 recebeu um corpo em decomposição que ficou preso numa rede de pesca, em Peniche. Pormenor pouco comum: tinha consigo uma identificação, um passaporte do Gana. A análise antropológica permitiu confirmar que o cadáver era do portador do BI, vítima de uma tentativa de imigração ilegal. "Continua comigo."
Além de idosos, entre os cadáveres que Eugénia Cunha é chamada a identificar constam frequentemente sem-abrigo e vítimas de acidentes de viação carbonizadas. Há ainda os falsos alarmes: cerca de 25% dos ossos que recebe para analisar são de animais. Para quem tem formação específica as características iniciais são fáceis. Identificar sexo ou idade aproximada - por grupo etário, não uma idade precisa - são os passos iniciais. Depois de obtido um perfil há que partir para os chamados factores de individualização, as características que tornam um esqueleto único (ver passo a passo, à direita). Não há duas pessoas iguais. Esqueletos também não.
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