O grafiter "Time", 30 anos, tem 215 tupperwares transparentes empilhados num quarto. Não contêm sobras de um banquete, mas ténis, centenas de ténis. Todos os meses, o empresário compra dois ou três pares e gasta um mínimo de 200 euros. Está mais calmo, diz. Em tempos a factura mensal rondava os 600 euros. Chegava a adquirir quatro modelos de uma vez, pela internet, em lojas como a Flight Club, em Nova Iorque, e, madrugada dentro, no site de leilões eBay. "Em vez de carneiros, começas a ver ténis."
Não uma, mas duas vezes, meteu-se no avião e aterrou em Londres e em Barcelona para lançamentos especiais. As noites ao relento compensaram. Saiu das lojas com as edições limitadas "New Balance Gaudí 24 Kilates" e "Stussy Nike Courtforce". Pelos últimos pagou cerca de 150 euros. "É caro, mas se agora quisesse, vendia-os pelo dobro", avança.
Não está nisto pelo negócio. Seria incapaz de vender a sua jóia da coroa, uns Air Jordan I originais de 1986. Mesmo que a revista Sneaker Freaker os cote em 657 euros. Procurou-os durante anos. Encontrou-os através de um coleccionador japonês ainda com a caixa e etiquetas originais. "São dos poucos que nunca usei. Tenho medo que a sola se parta", explica. O seu Santo Graal são os Nike Air Max 1 feitos em colaboração com a loja holandesa "Patta". Vai ser "quase impossível" dar com eles. "Fizeram uma edição muito limitada."
Time é aquilo a que se chama na gíria um sneakerhead. A sua colecção de modelos dos anos 70, 80 e início de 90 é a maior do país. "De 1995 para cima não me interessa", explica. "É a tal coisa: eras miúdo, vias os ténis naquelas cores todas e os teus pais não tos iam dar. Fica-te na cabeça. Quando começas a trabalhar e a ter um ordenado, vais buscá-los. É um bocado de nostalgia. Não há marca que neste momento não pegue nisso."
Como tudo começou Os primeiros ténis apareceram no final do século XIX. Em 1916, os "Keds" eram anunciados como "silenciosos". Quem os usasse poderia surpreender ("sneak up") qualquer pessoa. Daí o termo "sneakers". No ano seguinte nasciam os revolucionários Converse All-Star, os primeiros concebidos a pensar numa modalidade, o basquetebol. Nos anos 50, o actor James Dean era fotografado com uns Converse Jack Purcell. Os ténis saltavam para a rua. O movimento sneakerhead nasceria três décadas depois pelos pés das estrelas do hip hop Run D.M.C e do basquetebolista em ascensão Michael Jordan.
Em 1984, numa tentativa de se revitalizar, a Nike desenhava um modelo exuberante para um jovem com talento para os afundanços, os Air Jordan I. Os ténis eram tão diferentes que a NBA os proibiu. O jogador fez orelhas moucas. Usava-os, triunfava e no final de cada jogo pagava uma multa de 5000 dólares. O mais maquiavélico dos marqueteiros não teria imaginado melhor. Dois anos depois um trio de rappers lançava o single "My Adidas" e fazia dos "Superstar" um ícone de massas. A marca alemã agarrou a oportunidade e assinou com eles um contrato inédito de 1,6 milhões de dólares. Parceria e sneakermania duram até hoje.
Fenómeno Decorre agora um dos leilões mais falados de sempre. Domingo passado começou a ser vendida no eBay a colecção do DJ AM, que chegou a trabalhar com Madonna e era um dos maiores sneakerheads do mundo. AM morreu em Agosto de overdose. As receitas provenientes dos quase 900 pares revertem para a luta contra a droga. E já há licitações acima dos mil dólares.
"Ele tinha ténis de que só foram feitos cinco pares. Vão lá estar a licitar os sneakerheads mais doentes", diz Ivan Rodrigues, conhecido por "Jacaré", que em conjunto com Bruno Conceição, ou "Texugo", escreve o allgoodthingscomeinpairs.blogspot.com. Criado há ano e meio, o blogue recebe 600 visitas diárias. "Criou-se uma comunidade que está a crescer", conta. "Já organizámos três festas em Lisboa. Conhecemo-nos todos".
Ivan, 29 anos, lojista, tem quase 200 pares, incluindo uns portugueses Sanjo. Junta-os desde que começou a trabalhar, com 17. "Há quem coleccione selos e moedas. Eu adoro isto, mas não sou louco." Recusa-se a dar 500 euros por um par e até encontra edições limitadas no outlet Campera, no Carregado ("não sei como vão lá parar"), embora já tenha pago mais de 230 euros por uns Air Jordan IV que encontrou na Flight Club, em Nova Iorque. Feitas as contas, é capaz de ter 20 mil euros em sapatos. "Nem quero pensar nisso. Estás no meio. É propício para o consumismo", diz. "Tive o bom senso de não fazer um cartão de crédito."
Relíquias "A minha ideia da coisa", começa Tiago Escada Ramos, de 31 anos, "é que há as 'general releases', que saem em massa, as edições limitadas, de que tenho alguma coisa, e os 'deadstock', os meus favoritos." Em poucos anos, este técnico de informática especializou-se em encontrar modelos originais, novos, guardados em armazéns poeirentos. O segredo é a alma do negócio, por isso não diz onde os encontra, nem quanto paga por eles. "Adoro andar à caça", diz.
Entre Portugal e Espanha, já não sabe quantos quilómetros percorreu.Visita lojas de desporto, tenta convencer representantes de marcas e liga para fábricas, como a Campeão que em tempos produziu os Le Coq Sportif. "São lindos", diz ao mostrar meia dúzia de pares dos anos 80. O seu maior tesouro são uns Nike "El Viento" de 78, ainda feitos nos EUA. "Nunca os vi em lado nenhum e eu tenho dois pares. É um mistério: na altura não havia Nike em Portugal". Outros favoritos são uns Adidas ainda feitos de pele de canguru. Só ainda não conseguiu encontrar o seu holy grail: os primeiros Air Jordan.
Big Punch Rua do Norte, 73, Lisboa
The Hood Rua do Norte, 65, Lisboa
Solebox, Berlim www.solebox.de
Alife Rivington Club, Nova Iorque www.rivingtonclub.com
24 Kilates, Barcelona www.24-kts.com
Undefeated, EUA e Japão Undftd.com
Patta, Amesterdão www.teampatta.nl
Flight Club, Nova Iorque www.flightclubny.com
Atmos, Tóquio www.atmos-tokyo.com




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