Bangladesh

Maria do Céu Conceição. "Assim posso ajudar mais pessoas"

Publicado em 19 de Novembro de 2009   
Trabalho humanitário com crianças no Bangladesh valeu-lhe a consagração. Portuguesa foi eleita Mulher do Ano no Dubai
A cerimónia de entrega do prémio, atribuído pela revista
O dia em que visitou Dhaka, capital do Bangladesh, mudou-lhe a vida. A incapacidade de ficar indiferente ao cenário de miséria, levou Maria do Céu Conceição, 32 anos, a criar uma instituição de assistência social. Ao fim de quatro anos, e de ajudar 600 crianças e as suas famílias, a portuguesa de Vila Franca de Xira foi eleita Mulher do Ano pela revista "Emirates Woman". A consagração deixa-a feliz, mas teve custos. "Ignorou" a família - que só agora começa a perceber a razão da sua ausência - e teve grande dificuldade em conciliar o emprego, como assistente de bordo, com o trabalho humanitário. Agora, o seu próximo sonho leva-a para o continente americano: quer abrir um orfanato no Brasil.

Qual o significado para si de ter ganho este prémio?

Foi muito importante porque aumentou o número de pessoas que me procuraram, só no dia de hoje, para oferecer ajuda. Quer voluntários, quer possíveis patrocinadores. Houve muita gente que se aproximou de mim para me felicitar e ao mesmo tempo com ofertas de dinheiro. Assim posso ajudar mais pessoas.

Como consegue morar no Dubai, ter uma fundação no Bangladesh e agora querer ir para o Brasil?

[Longo suspiro] É muito difícil... mas é um sonho e é muito gratificante ajudar alguém. Vou tentar tirar um ano de férias para poder montar o orfanato no Brasil. Ainda não sei onde...

Como foi parar ao Dubai e depois ao Bangladesh?

Vim para o Dubai em 2003, em trabalho. Nunca pensei ficar cá mais de um ano, mas ainda aqui estou. Depois fui a Dhaka, fiquei assustada com o que vi, e quis ajudar as crianças. Em Julho de 2005 consegui fundar a instituição e agora divido os meus dias entre o Dubai, Dahka e o meu trabalho [assistente de bordo] que também implica viajar muito.

Trabalha para a companhia aérea Emirates Airlines?

Sim. Faço o horário completo. De 2005 a 2008 tive muitas dificuldades em conciliar o meu trabalho com a instituição. Tenho de pedir ao meu patrão. Só num ano tive 60 faltas. Um dia, ele chegou-se ao pé de mim e disse-me: "Tens de te comportar."

Como reagiu a este prémio?

Deixa-me muito feliz pelo reconhecimento. Ainda estou em estado de choque.

Sabe que já foi falada para Prémio Nobel da Paz?

[Risos e longa pausa] Estou feliz mas faço isto para ajudar as crianças, não para receber prémios.

Voltar a Portugal é uma hipótese?

Nos últimos quatro anos só fui uma vez a Portugal. Tive de renovar o passaporte. Agora já só tenho uma página no passaporte - porque cada vez que vou a Dhaka é um carimbo - e terei de o renovar. Pedi cinco dias em Dezembro para poder ir até Portugal.

Para estar com a família?

Vai ser difícil. Infelizmente ignorei muito a família, mas agora estou a tentar aproximar-me. Passo muito tempo entre o Dubai e o Bangladesh. É difícil. A minha família sofre muito, mas acho que já entendem melhor o porquê de estar tão longe.

Quantas pessoas ajuda no projecto "The Dhaka Project"?

Neste momento ajudamos 600 crianças, mas também as suas famílias e outras pessoas que tenham dificuldades. Queremos ajudar muitos mais, mas tudo depende dos patrocínios que conseguirmos.

Quantas pessoas trabalham no projecto em Dhaka?

Entre 90 a 100 funcionários. Todos cidadãos locais.

Voluntários?

Não, não. Estes são os funcionários pagos. Depois temos mais voluntários. Ainda esta semana chegou um casal de voluntários portugueses. Já é o sexto casal que nos vem ajudar.

E que outro tipo de ajudas recebe de Portugal?

Tenho seis a oito pessoas, individuais - é individuais que se diz, não é? - que me enviam dinheiro. Há uma senhora, faço questão de relatar a história dela, que tem apenas 200 euros de reforma e todos os meses me envia 10 euros.

Os patrocinadores são sempre individuais ou também há empresas?

Há empresas que nos ajudam, mas portuguesas não.

Quem é o maior patrocinador?

A Emirates Airlines.

Tem mais projectos?

Estou à espera de abrir um orfanato no Brasil em 2010. É um sonho que tenho.

É uma internacionalização do "The Dhaka Project"?

Podemos dizer que sim. Mas este é um sonho que tenho há muito: poder ajudar crianças no Brasil.


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