Fernando Pessoa
Exclusivo i: Pessoa e a língua grega - o "murmurio humido das ondas"
por Patricio Ferrari, Publicado em 19 de Novembro de 2009
Leia ou imprima ao lado mais um inédito de Pessoa: "Dois fragmentos com referências a Ésquilo"
Em Outubro de 1906, Fernando Pessoa matriculou-se na cadeira de Grego ministrada pelo professor Epifânio Dias. Da experiência universitária, efémera, conhecemos numerosos pormenores, revelados num artigo de Luís Prista (in "Memória dos Afectos", 2001), mas pouco sabemos quanto à relação de Pessoa com o grego a partir deste primeiro encontro inicial. Em tal sentido, algumas das pistas mais importantes encontram-se nos livros da sua biblioteca particular, onde há vestígios que denotam a intensidade da descoberta.
As marcas, sublinhados e marginalia inscritos na sua "Grammaire Abrégée de la Langue Grecque" (1901), de Adolphe Kaegi, são já sinal de certa dedicação. Mas para além disso existe na biblioteca particular de Pessoa outro livro talvez adquirido no mesmo contexto académico: trata-se do "Prométhée enchainé" (1884), tragédia convencionalmente atribuída a Ésquilo, sendo o exemplar assinado pelo poliglota Alexander Search, em "December, 1906". Uma vez que esta obra se encontra em grego antigo (não bilingue) e com anotações peculiares nas margens, poderá concluir-se que Pessoa não reduziu o seu entusiasmo pela língua helénica à aprendizagem de rudimentos gramaticais nem esta se confinou ao breve período do Outono de 1906.
Estes versos ("Ó claro éter e velocíssimos ventos, | ó nascentes dos rios e riso inúmero | das ondas dos mares, ó terra mãe de tudo,")1 correspondem ao início da invocação de Prometeu, na sua entrada em cena. Os algarismos à esquerda indicam o número de sílabas de cada verso "12 | 13 | 12"; as cifras à direita assinalam as sílabas acentuadas "2 | 5 | 8 | (10) | 12 || 3 | 6 | 8 | 12 || 2 | 5 | (9) | 10 | 12"; a seguir ao traço horizontal, encontra- -se a indicação da sílaba que precede a cesura "5 | 6 | 7". Em lugar de medir os versos a partir de regras da métrica quantitativa clássica (que contava as sílabas longas e as breves), o levantamento pessoano das sílabas acentuadas demonstra que, pelo menos em termos rítmicos, a leitura do poeta foi regida pelo sistema métrico português (sílabas tónicas e átonas)2.
Mas de onde terá surgido o fascínio de Pessoa por esta peça de Ésquilo? Num texto intitulado «Introducção á Esthetica» ("Páginas de Estética", 1967: 7-12), noutro destinado ao "Livro do Desassossego" (ver caixa ao centro3) e no primeiro texto aqui apresentado4 ("A estas horas claras") encontramos citadas as palavras do titã: "Riso innumero das ondas." Esta imagem surge sempre associada a reflexões poéticas que revelam preocupações musicais. É provável que Pessoa, lamentando não saber grego, tivesse sentido que a beleza desta língua estava cifrada nas ressonâncias de um verso de Ésquilo; daí a sua alusão ao mar, ao murmúrio húmido das ondas.
Patricio Ferrari, Universidade de Lisboa
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Exclusivo i: Pessoa e a língua grega - o "murmurio humido das ondas"
Comentários