Desemprego
A única solução é estudar e esperar que o desemprego e a crise passem
Publicado em 18 de Novembro de 2009
Terceiro trimestre de recordes: 9,8% de desemprego, emprego cai 3,4%, inactividade alastra com a recessão
Os portugueses estão a fugir do mercado de trabalho: a taxa de inactividade - o peso dos estudantes, reformados e outros inactivos na população total - está no valor mais alto dos últimos oito anos.
O Instituto Nacional de Estatística (INE), que ontem divulgou os resultados do inquérito ao emprego do terceiro trimestre, diz que existem 3,46 milhões de inactivos em Portugal, mais 2,7% do que em igual período de 2008. Trata-se da maior subida da série que remonta a 1998. Basicamente, quase 40% da população portuguesa está fora do mercado de trabalho. Vários especialistas sublinham que as razões para este cenário são as piores - crise, recessão, indústrias obsoletas e endividadas - mas que os efeitos a prazo até podem ser benéficos. Muitas pessoas optaram por estudar, cá ou fora do país, para mais tarde, no regresso ao mercado laboral, terem mais sucesso em matéria de emprego: serem relativamente mais bem pagas a fazer algo que realmente gostem e em que sejam boas.
Aquela tendência nos inactivos, relativamente recente, que esteve a descer de forma sustentada até ao início da actual crise financeira, em meados de 2007, cedo se transformou numa autêntica explosão. Porquê? A taxa de desemprego subiu para 9,8% no terceiro trimestre (novo máximo de sempre, que equivale agora a 547 mil pessoas sem trabalho) e o ritmo de destruição de emprego chegou aos 3,4%, também ele um máximo. Ontem à tarde, Helena André, ministra do Trabalho, disse que "não esperava números tão elevados" e prometeu que as medidas extraordinárias anticrise deste ano vão estender-se a 2010. Disse ainda que o governo está a estudar "novas medidas" sociais, que deverão ser incluídas no Orçamento do Estado para o próximo ano.
Com este quadro laboral, a economia portuguesa, a mais pobre da zona euro e em rota de empobrecimento quando comparada com outros parceiros europeus menos desenvolvidos, está a falhar na oferta de condições para que muitos queiram sequer manter o emprego ou insistam na procura do trabalho que ainda não têm. Os dados do INE indiciam isso. A população estudantil disparou mais de 7% em termos homólogos, estando agora em quase 778 mil pessoas. Este contingente chegou a estar em queda, mas desde o final de 2007 que o seu caminho é para cima.
Os especialistas confirmam a tese. "É muito provável que haja cada vez mais quem decida prolongar ou regressar aos estudos. Estamos a falar numa nova percepção social de que estudar e ter as qualificações certas compensa", afirma Pedro Adão e Silva, professor do Instituto Universitário Europeu. Para o sociólogo, "com as novas regras de Bolonha, muitos licenciados decidem continuar a estudar, fazer um mestrado, por exemplo, e não ir logo para o mercado de trabalho", exemplifica.
"Espero que as pessoas se apercebam disto: o mercado de trabalho não voltará ao que era. O desemprego vai ficar estruturalmente mais alto, não vai haver crescimento tal que justifique grandes recuperações no emprego como no passado", avisa Adão e Silva. Ontem, o Banco de Portugal também alertou que a economia deverá enfrentar um longo período de estagnação económica depois da crise (ver página 19). E disse que não haverá desenvolvimento pleno "se os novos desempregados não voltarem rapidamente ao mercado de trabalho"
Mas continua a haver saídas. Luís Palha, presidente da Jerónimo Martins, refere que o programa Novas Oportunidades "está a ter a sua importância na abertura de mentalidades", levando as pessoas a investirem nelas próprias para garantirem a fase seguinte da carreira. "No universo Jerónimo Martins muitos foram os que optaram pela via das qualificações. Não tenho de cor, mas cerca de 2000 empregados do grupo estiveram ou estão no programa".
A iniciativa Novas Oportunidades deverá abranger, só este ano, quase 400 mil pessoas, jovens e adultas, tendo já completado uma audiência acumulada de um milhão de formandos desde 2006, ano em que foi lançada. Em 2009, serão injectados na economia mais de 1,2 mil milhões de euros através dos programas de qualificação e formação profissional, maioritariamente financiados (em 70%) por fundos da União Europeia. O resto virá dos cofres públicos. Há dinheiro na calha até 2013.
Para formar toda esta gente e dar uso aos abundantes meios financeiros disponíveis, o recrutamento de formadores e professores está em alta e contrasta com o descalabro no emprego nacional. No sector da Educação, os empregos cresceram 5%; no segmento dos especialistas das profissões intelectuais e científicas, onde estão os professores, a subida foi de 2,6%. O aumento do número de estudantes ofereceu um dos maiores contributos de sempre à subida da população inactiva, mas são as corridas às reformas que continuam a liderar esta dinâmica, mostra o INE.
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