Gripe A

"Se partir a perna dois dias depois, a culpa é da vacina?"

por Mariana de Araújo Barbosa e Rute Araújo, Publicado em 18 de Novembro de 2009   
Segunda grávida perde feto. Especialistas garantem que a culpa não é da imunização
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Um feto humano às 22 semanas - pouco mais de metade da gravidez. As duas grávidas que perderam os bebés estavam no final do tempo, nas 34 semanas
Em dois dias, duas grávidas que tinham recebido a vacina contra a gripe A perderam os bebés, mas os médicos sublinham que não não há qualquer relação de causalidade entre a vacina e as mortes. "Todos os meses morrem cerca de 30 fetos em Portugal. É a biologia. Já acontecia antes da vacina e vai continuar a acontecer. O facto de as grávidas terem sido vacinadas antes de isso acontecer é uma mera coincidência temporal", afirma ao i o presidente do colégio de obstetrícia/ginecologia da Ordem dos Médicos, Luís Graça. "Se alguém partir uma perna dois dias depois de ter sido vacinada, a culpa também é da vacina?", questiona.

A grávida de 34 semanas deu entrada na CUF Descobertas, em Lisboa, na noite de segunda-feira, e foi observada naquela unidade privada. O feto já estava sem vida, adianta fonte da José de Mello Saúde. Ontem à noite, à hora do fecho da edição, a paciente continuava em trabalho de parto. A mulher tinha sido vacinada contra o vírus H1N1 na quinta-feira, 12 de Novembro. O hospital remete para hoje mais esclarecimentos sobre o caso.

Este é o segundo caso no espaço de dois dias. No domingo, outra grávida de 34 semanas deu entrada no hospital de Portalegre, ao reparar numa diminuição do movimento do bebé. Depois de ser observada, ficou internada apesar de se "encontrar bem", segundo comunicado oficial. "Após a realização de exames, verificou-se a morte do feto", mas o hospital de Portalegre emitiu de imediato um comunicado em que negava qualquer ligação entre a morte súbita do feto e a vacinação da grávida contra a gripe A quatro dias antes. A autópsia "inconclusiva", conhecida na noite de sexta-feira, dava conta de uma relação "meramente circunstancial" entre a vacina e a morte do feto. A confirmar-se a associação, "seria o primeiro caso no mundo", defende Luís Graça.

O especialista reafirma que, por se entender que as grávidas podem ter complicações - no caso da gripe, o risco é dez vezes superior à população geral - é que se decidiu que deviam ser protegidas com a vacina. E lembra que a autópsia ao feto que morreu em Portalegre aponta para problemas que podem ser provocados por muitas razões, "como a compressão do cordão umbilical ou a deslocação da placenta, mas não pela vacina".

"A Noruega e a Suécia já vacinaram mais de dois milhões de grávidas com esta vacina. São países que têm sistemas de vigilância apertada e não detectaram nenhum caso" de complicações graves, refere.

A campanha de imunização contra a gripe A começou em Portugal no dia 26 de Outubro. Primeiro as grávidas com doenças associadas, depois as grávidas sem patologias, além dos restantes prioritários, como doentes crónicos (diabéticos, imunodeprimidos, obesos ou com problemas respiratórios. Mas o Ministério da Saúde continua sem divulgar quantas das 81 mil doses recebidas já foram dadas à população. Certo é que as autoridades de saúde decidiram antecipar o calendário de vacinação incluindo já faixas que pertencem ao último grupo. Esta segunda-feira começaram a ser vacinadas as crianças até aos dois anos, apesar de o Ministério ter negado, até à semana passada, que iria avançar já com esta imunização.

Até à hora de fecho desta edição, foi impossível obter declarações quer do Ministério da Saúde quer da Direcção-Geral da Saúde.


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