Editorial

Portugal em expedição pública até ao espaço

por André Macedo e Inês Cardoso, Publicado em 18 de Novembro de 2009   
Foram conhecidos ontem os números de desemprego: o país entrou na twilight zone, perdeu a órbitra, vai a caminho da Lua.
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A região espanhola da Extremadura enviou 20 pessoas à China durante 14 dias para que vissem um eclipse solar que durou sete segundos. A Extremadura, embora em situação ainda mais calamitosa, tem vários pontos de contacto com Portugal além da geografia: a economia que sobrevive ligada à máquina, as decisões políticas exóticas e a desesperante falta de expectativas das pessoas.

O desemprego é o principal reflexo desta penúria partilhada. Embora na Extremadura a falta de emprego atinja o cume (19,9%), os números do Instituto Nacional de Estatística revelados ontem colocam Portugal na mesma órbita lunar: 9,8% e a subir. Se a isto juntarmos o défice público em trajectória descontrolada (7% do Produto Interno Bruto), uma défice externo espacial (acima dos 100% do PIB) e uma dívida pública a caminho da twilight zone (90% do PIB em 2011), o resultado é um enorme buraco negro de onde ninguém sabe bem como será possível sair.

Além de Sócrates, Teixeira dos Santos é o homem a quem se exigem as respostas. O ministro das Finanças agarrou o lugar desde o primeiro momento e é considerado uma trave-mestra na solidez governativa. A pasta das Finanças é das mais desgastantes e sensíveis. Não é o lugar certo para fazer amigos se o cargo for desempenhado com rigor e seriedade. Teixeira dos Santos é rigoroso e sério. Além disso, trabalha no duro e é solidário com o primeiro-ministro, daí ter sido aparentemente injusta a medalha atribuída, em 2008, pelo "Financial Times": foi eleito o pior responsável das Finanças numa lista de 19 candidatos europeus. Este ano a coisa melhorou um pouco, saltou para o 15º lugar, ainda assim na cauda da Europa, à frente de Espanha, Hungria, Grécia e Irlanda.

Muito a propósito, o FT concluiu que Teixeira dos Santos é um sobrevivente, uma qualidade que realmente tem, já que a tentação de atirar a toalha ao chão é uma saída compreensível quando o adversário parece maior do que a artilharia disponível. Mas se aguentar de dentes cerrados uma conjuntura dantesca merece elogios, é forçoso concordar com o jornal financeiro: por mais qualidades que tenha, Teixeira dos Santos foi incapaz de corrigir os graves problemas estruturais e os défices crescentes do país. Portugal continua a gastar o que não tem e insiste na linha estatizante - linha essa que encontrou na crise a justificação económica e filosófica para se tornar ainda mais ortodoxa.

Claro, não são os apoios extraordinários às empresas ou o reforço dos subsídios sociais que estão em causa. Todos eles são importantes e traduzem boas decisões no momento certo. Acontece o mesmo com as Novas Oportunidades, uma política pública inteligente que pode abrir novos horizontes a quem deixou de acreditar na mobilidade social. O problema é que Teixeira dos Santos sabe o que faz, mas não fez o que podia. Foi incapaz de impor uma mudança de atitude tão importante como reduzir a despesa pública: a urgência de afirmar de uma vez por todas que a economia - emprego, crescimento - resultam do esforço que os portugueses fizerem todos os dias e não do que o Estado quer ou deixa de querer.

Avançar, arriscar, investir, inventar, criar - são tudo verbos em desuso. Quando aparecem excepções, lá surge o peso e a absurda teia fiscal a hipotecar o que deveria servir para reinvestir. O novo código contributivo que chega em Janeiro é mais uma montanha no caminho da prosperidade e da iniciativa privada. Assim, mais vale ir de passeio até à Lua: tem boas vistas e tudo o que lá acontece não tem gravidade nenhuma.


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