Primeiro plano
Uma modesta proposta
por Paulo Tunhas, Publicado em 18 de Novembro de 2009
O ambiente malsão e deletério que se vive é cada vez mais insuportável. Uma modesta proposta de solução
"Isto está a passar das marcas", declarou, irado, José Sócrates. "Se depender de mim, divulgo as escutas, para isto acalmar", afirmou, indefinivelmente, o PGR, Pinto Monteiro. "Isto" anda na cabeça de toda a gente. E o que é "isto"?
Trata-se, é claro, da parte das escutas feitas a Armando Vara, no quadro da investigação de um processo de corrupção e tráfico de influências, que envolve conversas com o primeiro-ministro, conversas essas nas quais o DIAP de Aveiro, de acordo com os jornais, viu indícios de "crime de atentado contra o estado de direito". Apoiando-se em fugas de informação, que implicam a violação do segredo de justiça (deve ser amor, porque o segredo em questão já não sabe viver sem ela), jornais e televisões falam de tentativas de favorecimento de certos órgãos de comunicação (os do "amigo Joaquim", na pitoresca fórmula que por aí circula) e de bem-sucedidas manobras destinadas a eliminar um telejornal incómodo para o poder, o célebre "Jornal das Sextas", de Manuela Moura Guedes, na TVI.
Face a esta trapalhada - à qual se acrescenta a fatal hesitação dos juristas em relação à legitimidade da retenção das escutas que envolvem o PM e à competência do presidente do Supremo Tribunal de Justiça para delas dispor como bem entender -, o círculo próximo do PM veio dizer que estamos perante um caso de "espionagem política", uma de- claração gravíssima prontamente condenada por quase toda a gente.
Agora vale a pena lembrar que as pessoas há muito que lêem nos jornais e vêem nas televisões histórias que, é triste dizê-lo, parecem pouco abonatórias dos escrúpulos do PM. A licenciatura, as casitas da Beira, e por aí adiante. E vale também a pena sublinhar que, no espírito das pessoas, este episódio das escutas concorre para o estabelecimento de um padrão de comportamento político que não é de maneira nenhuma elogioso para José Sócrates.
Haverá verdade, parcial ou total, em tudo isto, ou, como o PM gosta de dizer, ele é sem falha vítima de conspirações, invejas, "bota-abaixismo" e coisas assim? Não sei, é claro, de qualquer saber rigoroso. Só sei que o ambiente deletério e malsão em que vive o país - e que só se pode agravar - tem muitíssimo a ver com as suspeitas (fundadas ou infundadas, repito, mas desagradavelmente regulares) que recaem sobre ele. E que o efeito de tal ambiente sobre a sociedade é particularmente nefasto.
Sendo assim, uma modesta proposta: e se o PM se demitisse? Há muita gente nesse velho partido de liberdade que é o PS que goza de prestígio e cuja probidade e competência intelectual são indiscutíveis. Podiam perfeitamente substituí-lo. Seria muito bom para o país.
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto
Escreve à quarta-feira
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