Decoração
Sofás que desafiam as leis da física
por André Rito, Publicado em 18 de Novembro de 2009
Ludovic Lestable é o criador de um negócio original: peças de mobiliário todas feitas de cartão
É um ritual novo mas que já se tornou um hábito. Todos os dias de manhã, depois de deixar o filho na escola, Ludovic Lestable faz a ronda pelas lojas de Campo de Ourique, em Lisboa. O objectivo é recolher caixas de cartão inutilizadas pelos comerciantes, que se acumulam depois na casa deste francês de 34 anos. Há três meses que se dedica a uma arte que tem tanto de especial como de desafio às leis da física: peças de mobiliário feitas exclusivamente de cartão. Se um barco que pesa toneladas pode flutuar em pleno oceano, por que razão não haveria um sofá de cartão de aguentar uma família inteira? É tudo uma questão de física.
Quem entra na casa de Ludovic, no centro de Lisboa, facilmente poderia pensar que ali funciona uma biblioteca ou uma papelaria. À medida que se sobem os degraus a caminho do terceiro andar o cheiro a cartão torna-se mais forte. Na sala, transformada em ateliê, há cadeiras e sofás de todos os feitios e para todos os gostos. Individuais, familiares, acabados ou em construção. Os motivos são variados e os materiais utilizados tornam as peças únicas.
"Costumo ir à feira da ladra todos os sábados. É mais fácil encontrar revistas ou jornais antigos, que resultam muito bem com este tipo de obras", conta. Há peças decoradas com recortes de jornais dos anos 50, pintados à mão, com bandas-desenhadas (para crianças) ou simplesmente lisos. "São feitos à medida e ao gosto dos clientes, podem ser forrados com jornais mas também com fotografias, desenhos, logótipos, publicidade, o que bem lhe apetecer", anuncia Ludovic no seu blogue (moveisemcartao.blogspot.com). No futuro, este francês - que chegou a Portugal há pouco mais de três anos - conta avançar com outras peças. "Estantes, mesas, secretárias, tudo é possível."
Leves e resistentes Os móveis são feitos apenas com tiras de cartão canelado e o segredo da sua resistência está na estrutura, semelhante ao esqueleto de um barco. Depois de entrelaçadas, as tiras são coladas e tapadas com uma nova camada de cartão. Para finalizar, e já depois de forrados ao gosto do cliente, "são impermeabilizados com verniz de água para não deixar passar qualquer tipo de líquidos e permitir uma limpeza rápida com esponja".
Em média, um sofá familiar, por exemplo, pode demorar dois ou três dias a concluir. "O primeiro é sempre o mais difícil, mas agora que tenho o molde torna-se mais rápido. De qualquer forma, é preciso contar sempre com os tempos de colagem e secagem", explica Ludovic. Quem se senta pela primeira vez dificilmente acredita nos materiais utilizados, em parte devido ao conforto de um sofá que assenta na perfeição à anatomia humana. A rigidez também não é um problema, "basta aplicar umas almofadas", diz o francês. Apesar de não ter qualquer formação na área, o design cuidado é uma das principais características das criações de Ludovic. "Inspiro-me muito em revistas da especialidade, de interiores, etc."
Ludovic nasceu em França, na pequena cidade de Chinon. "Estou sempre a repetir a mesma história: costumo dizer que venho da aldeia onde a Joana d'Arc se encontrou pela primeira vez com o rei. Já viu o filme?", brinca. Saiu cedo de casa, para o Sul, onde trabalhou num restaurante, e depois foi para São Francisco. Tornou-se professor de mergulho, viajou pelo mundo inteiro, até se cruzar com a sua mulher, em Moçambique. Depois de ter vivido alguns anos em África, veio para Portugal e trabalhou num call centre. Um dia regressou a Chinon, visitou uma feira de artesanato local e descobriu este negócio. "Fiz um pequeno curso para aprender a construir a estrutura e resolvi arriscar em Portugal", conta. O risco, esse, não será muito elevado. Pelo menos a julgar pelos custos de produção.
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