Cinema

Napoleão: a batalha que Kubrick perdeu

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 17 de Novembro de 2009   
Queria fazer o maior épico de sempre. Os estúdios não deixaram. "Napoleon" ressuscita hoje em livro
Perfeccionista e obsessivo, Kubrick trabalhou em
Está tudo no guião: o general Napoleão Bonaparte conhece Josefina de Beauharnais numa orgia. Em 1796, casam-se. Ele tem 27 anos, ela 33 e dois filhos. Vemo-los fazer amor à luz das velas numa sala forrada a espelhos. O realizador quer criar uma sensação a que chama "maximum erótica". Procurou meses a fio as lentes que lhe vão permitir filmar a cena só com luz natural.

Mais do que o Imperador, interessa-lhe o homem. "Foi um dos poucos que influenciaram a história e moldaram o destinos dos seus tempos e das gerações vindouras", justifica em entrevista. "Tem tudo o que uma boa história deve ter: um herói excessivo, inimigos poderosos, combate armado, uma história de amor trágica, amigos traiçoeiros e leais, e muita coragem, crueldade e sexo."

O cineasta é um perfeccionista obsessivo. O sucesso do filme anterior, "2001, Odisseia no Espaço", com quatro nomeações para os Óscares de 1969, deu-lhe espaço de manobra. Os estúdios MGM concordaram em financiar a pré-produção. Há quase dois anos que estuda a vida do francês. O fascínio vem de miúdo. "Quanto mais lia, mais incrível parecia a Europa aos olhos de um jovem americano", dirá a viúva, 40 anos depois.

Conta com a ajuda dos melhores. O consultor histórico é um especialista da Universidade de Oxford, em Inglaterra, Felix Markham. Vinte dos seus alunos pesquisam as biografias das 50 personagens mais importantes na vida de Napoleão. Compilam um arquivo com 15 mil entradas e 17 mil imagens de época.

O trabalho é tão obsessivo que o realizador começa a adoptar os hábitos do imperador: sempre que conhece alguém, bombardeia-o com perguntas; às refeições, come, de forma alternada, uma garfada de sobremesa, outra de carne.

Também pretende recriar algumas das batalhas mais emblemáticas. Mas quer fazê-lo tal e qual aconteceram. "Eram lindas, como vastíssimos ballets letais. Vale a pena fazer todos os esforços para explicar a configuração das forças ao público", explica. Decide que vai precisar de 50 mil soldados. Viaja pela Europa em busca de locais de rodagem. Encontra-os na Roménia e na antiga Jugoslávia, onde também lhe arranjam figurantes por dois e quatro dólares/dia, respectivamente. Para os uniformes, descobre uma espécie de "tecido papel" que lhe permite imprimi-los. À distância ninguém notará. Por fim, os historiadores ajudam-no a poupar milhões na construção de cenários quando lhe indicam os melhores palácios em França e Itália para albergar reis e imperadores. Até já decidiu quem será o protagonista: Jack Nicholson. O jovem realizador só não prevê uma coisa: que, depois de entregar o guião, os estúdios lhe tirem o tapete.

Derrota Stanley Kubrick nunca chegou a realizar "Napoleon". A MGM receava que o tema não fosse rentável. Ainda por cima, ao mesmo tempo surgiram três outros filmes sobre o imperador. Todos falharam. Kubrick, entretanto, passou para a Warner Brothers, onde o deixaram realizar o violento "Laranja Mecânica". Acabou por usar parte da pesquisa técnica para o filme seguinte, "Barry Lyndon". Na década de 80 ainda equacionou transformar o projecto numa mini-série televisiva. Algumas das ideias - um marido que conhece uma prostituta depois de saber da traição da mulher e a orgia de mascarados - acabam por aparecer na sua última obra, "De Olhos Bem Fechados". Quanto a "Napoleon", o livro monumental lançado hoje pela Taschen é o mais próximo que alguém alguma vez estará do que seria o sonho de Kubrick.

"Stanley Kubrick's Napoleon: The greatest Movie Never Made"
De Alison Castle
Taschen
€500 (edição limitada de 1000 exemplares)

Cerca de 17 mil imagens napoleónicas, o guião definitivo e todos os detalhes do processo criativo em 2874 páginas repartidas por 10 livros guardados num só.


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