Editorial

Mais mercado, menos política, mais país

por André Macedo e Inês Cardoso, Publicado em 16 de Novembro de 2009   
A certidão de óbito está escrita: os políticos não souberam gerir a coisa pública. Só há uma saída: privatizar, privatizar e privatizar.
Opções
O cemitério da Polícia Judiciária está cheio de casos investigados que não deram em nada. Ainda bem. Investigar é o trabalho normal da PJ, como arranjar motores é o ofício do mecânico. Em regra, nem uma coisa nem outra deveriam espantar demasiado. Há milhares de investigações que não chegam a conclusão nenhuma e acabam arquivadas no silêncio dos gabinetes. Apesar do aspecto tenebroso, é assim mesmo que o sistema funciona e ele precisa desta discrição para ser eficaz e não conspurcar a reputação de milhares de pessoas investigadas mas que, muitas vezes, se revelam inocentes.

O drama das escutas Vara-Sócrates - escutas que ninguém sabe bem o que dizem - é potenciado pelas circunstâncias infelizes e inferiores em que o país se habituou a funcionar. Não é de agora que a mão do Estado está por todo o lado. Não é de hoje que milhares de empresas e de famílias dependem de um negócio ou da boa vontade dos dinheiros públicos para prosperar ou simplesmente sobreviver. Mais de metade da riqueza produzida no país é consumida pelo Estado. O que equivale a dizer que são raros os sectores em que é possível viver sem ter de negociar o dia-a-dia com alguém que gere dinheiros e contratos públicos, por mais prosaicos que sejam.

Fosse Portugal a Suécia ou um outro país nórdico, poderíamos, apesar de tudo, confiar nalgum bom senso e nalguma responsabilidade pública. Também na Suécia há corrupção, também na Suécia se desvia dinheiro ou se aplica mal o que resulta dos impostos. Também na Suécia se desconfia pontualmente das investigações judiciais e se lamentam as decisões dos tribunais. Não há sociedades perfeitas e o crime não tem nacionalidade. O problema português é de escala: país pequeno em dimensão, enorme no peso do Estado.

Tudo isto piora ainda mais porque há pouco dinheiro - o que estimula a ganância - e porque Sócrates é um defensor dos centros de decisão nacional. Para o primeiro-ministro, é fundamental segurar um núcleo de sectores estratégicos nas mãos de investidores portugueses para salvaguardar a independência da pátria. Acontece que é uma armadilha misturar patriotismo com economia. Como não há muitos empresários fortes - e os que há são relativamente pobres e sem dimensão internacional -, a solução tem sido manter o Estado nessas empresas. O resultado está à vista: como as grandes empresas têm quase sempre qualquer coisa de público (capital ou ex-dirigentes partidários), as suspeitas de corrupção acabam por envolver os representantes estatais, da esquerda à direita.

É triste, mas em todos estes anos de democracia os responsáveis políticos não se revelaram à altura das exigências. Não souberam gerir a coisa pública com rigor e seriedade. Quiseram interferir. Favoreceram e promoveram os amigos. Não deixaram outra alternativa senão a inevitabilidade de uma varredela de cima a baixo. Nestes dias de sucata, o país está de novo confrontado com o inevitável: deve deixar de ter um banco público, sair das telecomunicações, da energia e das dezenas de actividades onde só distorce a concorrência. Deve privatizar, porque não é pessoa de bem.

A corrupção não se irá embora - porque não é monopólio público -, mas deixará de envolver sempre o Estado e contaminar a democracia. Se isso acontecer, os suspeitos serão empresários privados - e só isso fará uma enorme diferença. Se Vara não estivesse no BCP - por ter estado na Caixa, onde estava por causa do PS -, Sócrates ganharia autoridade e o país alguma tranquilidade. Talvez assim também ganhássemos todos algum futuro.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Comentários

Dê a sua opinião