Primeiro plano

Quem é que precisa de ser disciplinado?

por João Rodrigues, Publicado em 16 de Novembro de 2009   
A flexibilidade laboral que tanto interessa aos patrões é um nome de código para maior facilidade em transferir custos para os trabalhadores
"Num regime de pleno emprego permanente, a ameaça de despedimento deixaria de desempenhar o seu papel como medida disciplinar (...) As greves por aumentos salariais e por melhorias nas condições de trabalho criariam tensões políticas (. . .) A 'disciplina nas fábricas' e a 'estabilidade política' são mais apreciadas pelos homens de negócios do que os lucros."

Peço desculpa pelo realismo da citação. Onde se lê fábricas, acrescente-se agora escritórios. Apresento o seu autor: Michal Kalecki, um economista polaco que viveu parte da sua vida em Cambridge e que escreveu, em 1943, um influente artigo sobre a economia política do pleno emprego.

Antes, já havia antecipado algumas das ideias de Keynes sobre as fontes da instabilidade económica.

Lembrei-me de Kalecki ao ver João Duque defender na SIC Notícias que o desemprego ainda não é suficientemente elevado no nosso país para quebrar a resistência dos trabalhadores no campo salarial. Uma maior flexibilidade laboral viria a seguir.

Note-se que a flexibilidade laboral é, sendo tudo o resto constante, o nome de código liberal para maior facilidade em transferir custos para os trabalhadores sob a forma de horários de trabalho baralhados e mais longos, custos reduzidos no despedimento, salários mais baixos e mais desiguais. Assim soa pior, não soa?

Duque expõe abertamente o que geralmente só se diz e pratica, mais ou menos às escondidas, nos areópagos da política económica. A crise é sempre uma oportunidade, já dizia Milton Friedman. A exigência de cortes nas despesas sociais e nos salários, e da tal flexibilidade, aí está pelas mãos da Comissão Europeia. O desemprego, que fragiliza os trabalhadores, facilita a tarefa política.

Duque também defendeu, desta vez em declarações ao i, que, ao contrário do que afirmam os keynesianos de esquerda, taxar as transacções financeiras não resolve nenhum problema. O pensamento dito liberal tem pelo menos a virtude da coerência. A liberdade sem entraves fiscais do capital financeiro e o poder dos banqueiros favoreceram o rebentamento de mais uma bolha especulativa, que levou ao brutal aumento do desemprego.

É claro que isto é insustentável. Tratar as pessoas como se fossem uma mercadoria descartável tem consequências. É que os salários são um custo, mas também uma fonte de procura. Os capitalistas e os seus economistas nunca podem ganhar em toda a linha. Quando isso acontece, emergem todas as falácias da composição: o que é racional do ponto de vista de cada homem de negócios pode levar a uma irracionalidade colectiva. Ela aí está. Na disciplina selectiva de um sistema de predação com deflação. Até quando?



Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas

Escreve à segunda-feira


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