ENSAIO

O que vai Obama fazer na Ásia

por Bernardo Pires de Lima, Publicado em 14 de Novembro de 2009   
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Obama avisa Israel sobre a questão dos colonatos
presidente que na história norte-americana mais deslocações fez ao estrangeiro nos primeiros seis meses de mandato centra a sua política externa na região prioritária dos seus interesses. Mas será esta a leitura correcta do périplo asiático de Barack Obama? Em parte. Por um lado, há pelo menos duas décadas que a região Ásia-Pacífico assumiu um protagonismo reforçado para os EUA, logo, o que Obama promove é uma evolução na continuidade desta orientação, com a diferença que vai entre o poder de então e de hoje da China, do Japão, da Índia ou da Indonésia. É verdade, isto faz toda a diferença. Por outro lado, também é verdade que Obama começou por se deslocar à Europa, aquando da Cimeira da NATO, o que nos pode levar a concluir que as alianças tradicionais e permanentes dos EUA continuam a ter relevância para esta administração. Ou seja, evitemos os extremos analíticos que vão da "irrelevância" de uns ao "absoluto domínio" de outros. O mundo é um pouco mais complexo que isso.

Desta viagem retiram-se à partida quatro grandes ideias: o reforço das alianças tradicionais (Japão e Coreia do Sul), a importância da relação bilateral com a China, o diálogo no fórum político-económico que representa 55% do PIB mundial e 44% do comércio internacional e a desconsideração que a Índia continua a merecer a esta administração. O objectivo é só um: demonstrar que os EUA continuam a ser uma potência asiática preponderante.

japão (13/14) e coreia do sul (18/19) Recentemente eleito, o governo japonês levantou interrogações sobre a aliança com Washington, obrigando Obama a responder a três desafios: garantir a segurança regional através da manutenção de tropas no arquipélago - nomeadamente com a abertura da base de Okinawa - sem gerar contestação na opinião pública japonesa; manter o apoio de Tóquio à missão norte-americana no Afeganistão, sobretudo no abastecimento de combustível; recuperar o estatuto de maior parceiro comercial com o Japão, lugar actualmente pertença da China. Ao iniciar esta viagem por Tóquio, Obama emite um sinal claro sobre o valor desta aliança e sublinha o compromisso norte-americano perante ameaças concretas à segurança nipónica, como a nuclearização da Coreia do Norte. Em 2010 comemoram-se os 50 anos do tratado de segurança entre EUA e Japão: a data não deve consumar um divórcio, antes a celebração de umas marcantes bodas de ouro.

A última paragem de Obama será na Coreia do Sul, outro aliado histórico. No topo da agenda estará aquilo que mais aflige Seul: a ameaça nuclear de Pyong-yang. Ainda esta semana, Kim Jong-il mostrou a Obama o que deseja: abandonar negociações multilaterais e sentar- -se frente a frente com a administração. Com Seul, Obama manterá o compromisso de segurança; a Washington, o presidente sul-coreano recordará a importância de desbloquear no Congresso a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre os dois aliados. Seul manterá ainda a sua cooperação no Afeganistão, em boa verdade o maior contingente asiático naquele teatro de operações, algo que não será esquecido quando se discutirem acordos bilaterais no Congresso.

cimeira apec, singapura (14/15) À volta da mesa, 21 países banhados pelo Pacífico (da Ásia à Austrália, passando pela América do Sul); antes desta reunião, Obama manterá conversações com os 10 membros da ASEAN incluídos na APEC. A primeira tarefa é renovar a má imagem deixada por George W. Bush neste fórum: muitos dos seus membros consideram que foi a expensas suas que o anterior inquilino da Casa Branca fixou prioridades no Iraque e na luta contra o terrorismo. Obama tentará recentrar a cimeira no seu core business: a liberdade comercial. A narrativa tenderá a reforçar a integração económica, embora no cenário pós-crise com os mecanismos de regulação a assumirem outro lugar. O crescimento e a influência da China obrigarão Obama a algumas conversações bilaterais, nomeadamente com a Tailândia, as Filipinas, a Indonésia, Singapura e o Vietname, além de retomar o dossiê Birmânia, agora com tendência para evitar o caminho das sanções.

china (15/18) Os cada vez mais íntimos laços económicos sino-americanos têm contido tensões políticas, mesmo que a China se tenha posicionado como o grande challenger da hegemonia norte-americana no pós-Guerra Fria. Obama, em detrimento da relação com a Índia, tem--lhe atribuído esse estatuto. Ou seja, para que os EUA se mantenham como potência asiática e assegurem um estatuto de liderança global, têm ao mesmo tempo de conter a China e cooperar com ela. Por outras palavras, pode não ser sustentável assistir ao crescimento da armada chinesa ao mesmo tempo que se promove o seu crescimento económico. Obama terá, a médio prazo, de fazer opções. A curto prazo importa ser pragmático e resolver a crise financeira. Veremos se, mais à frente, este G2 não provocará ressentimentos demasiado fortes em potências como a Índia.


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