PRIMEIRO PLANO

Televisão e controlo remoto

por Ricardo Reis, Publicado em 14 de Novembro de 2009   
Prefere a televisão como ela é hoje ou como era há 20 anos? A resposta a esta questão diz muito sobre as suas opções políticas
Opções
Na TV moderna, não é possível impor programas aos espectadores
Responda à seguinte pergunta: a televisão em Portugal é melhor hoje ou há 20 anos atrás? Não se precipite. Combata a tendência natural para achar que tudo no passado era melhor, mas também tente não se deixar influenciar pelos progressos tecnológicos na produção dos programas. A minha intenção com esta pergunta é que pense se está mais satisfeito (ou satisfeita) com a televisão hoje ou há 20 anos. A sua resposta diz bastante sobre as suas opções políticas e sobre o que pensa dever ser o papel do Estado.

Há 20 anos havia apenas dois canais em Portugal, ambos geridos pelo Estado. A programação era determinada por funcionários públicos, que tinham em conta não só o que as pessoas queriam ver, mas também o que achavam que elas deviam ver. Era frequente a qualquer hora não haver programas que interessassem a muitas pessoas, mas por outro lado, porque só havia uma telenovela, quem gostava de telenovelas partilhava um conjunto de pontos comuns para discutir nos dias seguintes.

Hoje muitos portugueses têm acesso a mais de 20 canais. Uns são geridos pelo Estado, outros por privados, alguns por portugueses e muitos por estrangeiros. Não podem impor programas aos espectadores, que num instante mudam de canal. Há canais só de desporto, dezenas de telenovelas, e duas séries de ficção em exibição a qualquer hora. São menos de meia dúzia os programas vistos pela maioria dos portugueses.

Se o leitor acha que sabe o que é melhor para si, acha também que a televisão é melhor hoje. Afinal com a RTP Memória, até pode ver quase os mesmos programas que via antes, mas hoje tem alternativas. Em vez de me sujeitar ao funcionário público que achava que me fazia bem ver séries da BBC, posso hoje ver estas séries, ou antes, se quiser, ver as séries da Fox ou da TVI. Eu é que sei o que é melhor para mim e ganhei, nos últimos 20 anos, a preciosa liberdade de escolher.

Por outro lado, se acha que há 20 anos é que era bom, não confia nas suas escolhas. Confiava antes nas escolhas da elite que geria a televisão, com a sua cultura vasta e uma generosidade genuína e desejo de educar. Onde uns vêem liberdade de escolha, o leitor vê desigualdade, e receia que pessoas de meios desfavorecidos escolham programas maus que as mantêm incultas. Por fim, lamenta a perda de uma cultura comum e desanima-se com a auto-exclusão das pessoas em grupos restritos que partilham os mesmos gostos.

Quem acha que a televisão é melhor hoje tem tendência para confiar nas pessoas e no mercado e para suspeitar das intervenções do Estado. Quem preferia a televisão no passado prefere soluções centralizadas, planeadas, e com uma forte mão do Estado. Na maior parte das opções políticas, são estes os valores em jogo.

Professor de Economia, Universidade de Columbia



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