Selecção
Playoff. Queiroz luta para manter um estilo de vida
por Pedro Candeias, Publicado em 14 de Novembro de 2009
Dinheiro da presença no Mundial é decisivo para manter investimento dos últimos anos
No playoff com a Bósnia, Portugal joga mais do que uma qualificação para um Mundial. Joga a vida. Ou, pelo menos, joga para manter um estilo de vida de aburguesado, de quem está habituado a que lhe abram a porta dos melhores hotéis, aos anéis de fumo do charuto cubano e do brandy sedoso mais caro. Na última década, a selecção e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) passaram da sueca ao gin rummy, da tascas ao clube exclusivo - em dez anos, passaram de um grupo de homens de bigode que se esforçavam sem sucesso para actuar nos grandes palcos aos miúdos que estão entre os melhores do mundo quase sem esforço. Carlos Queiroz, que já deixou o bigode para trás, tem agora essa missão, de lutar pela vida dele, da selecção e do projecto a longo prazo.
Falhar a presença no Mundial-2010 significa cair um lance de escadas na hierarquia social. "Se não nos qualificarmos não podemos manter determinado ritmo de actividade. Logo, tem de haver desinvestimento. Só tem sido possível uma certa reestruturação com Portugal a marcar presenças sucessivas nas fases finais", avisou Gilberto Madaíl em entrevista conjunta ao "Record" e à Antena 1.
De 1996 a 2008, Portugal só não esteve no Mundial de 1998, com Artur Jorge, então com bigode, ao comando. Por isso, e pelos recentes resultados (vice- -campeão europeu em 2004; semi-finalista no Mundial de 2006; quartos-de- -final no Euro-2008) alcançados com um bigode brasileiro, Portugal ganhou milhões. Em 2006, com o quarto lugar, por exemplo, a selecção recebeu 14 mi-lhões de euros - agora, a FIFA quase que duplica estes números chorudos. Mas a FPF também se habituou a degustar o fillet-mignon nas negociações com os patrocinadores, como a Nike, com a qual tem contrato até 2014. "Antigamente, negociávamos os contratos como prémios de qualificação. Agora, se não nos qualificarmos, temos uma penalização", disse Madaíl na entrevista. Na mesa estão 20 milhões de euros que faltam garantir junto dos sponsors. Sem Mundial-2010, os valores descem e Portugal terá de repensar a estratégia e a adequar-se a uma vida nova, sem os luxos entretanto conquistados. "Quando se está habituado a frequentar hotéis de luxo, depois é complicado ir para um de duas ou três estrelas", reconheceu Madaíl.
Luz para o estatuto Carlos Queiroz já garantiu que ficará na selecção por muitos e bons anos. Pelo menos dez, para edificar um projecto de reestruturação. E Madaíl também já afirmou que a continuidade de Queiroz não depende da qualificação para a África do Sul. Com a sua sobrevivência garantida, o seleccionador inflama o discurso antes dos jogos que valem um estatuto. "A paixão irá guiar-nos ao Mundial", disse no lançamento do jogo. Queiroz começa por piscar o olho aos adeptos, usando uma linguagem que surpreende. "O público da selecção é fantástico, é o público do clube de Portugal, o maior clube do país. E vai dar uma cabazada ao da Bósnia." O segundo maior clube do país é o Benfica e é na Luz que se realiza hoje a primeira mão desta eliminatória. Queiroz volta a surpreender. "Vou sentir algo como cheira bem, já cheira à África do Sul." Queiroz, benfiquista dos tempos de infância passada em Moçambique, tem na Luz uma luz para realizar o "sonho de estar no Mundial". Desde os anos 70, Portugal só perdeu três dos 33 jogos disputados no estádio encarnado: em 1979, com a Áustria (2-1) na qualificação para o Euro-1980; em 1981, com a Suécia (2-1), na qualificação para o Mundial-1982; e em 2004, com a Grécia (1-0), na final do Europeu português. Uma questão de mística? "As portas estão abertas."
Veja o Portugal-Bósnia hoje às 20h30 na TVI
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