Salários
Empregados do privado "têm de apertar o cinto"
Publicado em 13 de Novembro de 2009
Gestores dizem que 2009 foi bom para o poder de compra dos salários. Agora é preciso ajustar. Salários reais podem cair em alguns sectores
É preciso "apertar o cinto" em 2010, reclamam os empresários. Se é verdade que este ano, a maioria dos salários do sector privado deverá registar um aumento real (de poder de compra) na ordem dos 4% ou mais, no próximo ano é "crucial" voltar à disciplina financeira para não pôr em risco a economia e evitar um aumento do desemprego, referem os vários gestores contactados.
Estudos recentes confirmam que o aumento dos salários mais baixos tende a ter um impacto muito reduzido nos custos das empresas, sobretudo se estivermos a falar das 111 mil pessoas que ganham o salário mínimo (450 euros).
Porém, em nome da competitividade e do emprego, os decisores não transigem. O cenário é claro: a actualização salarial terá de ser nula ou, no máximo, de 1,5%. Se for 0% haverá perda de poder de compra, se for 1,5%, o aumento real rondará os 0,4%.
Para milhares de pessoas que, por exemplo, ganham cerca de 890 euros por mês (valor em linha com o salário médio), uma actualização de 1,5% em 2010 significa uma subida mensal de 13,35 euros. O ganho adicional num ano inteiro de trabalho é de 187 euros.
"Os sectores tradicionais não se podem dar ao luxo de aumentar salários, tendo em conta os países com os quais estão a concorrer, caso da China. 0% é o melhor que se pode fazer para manter os empregos e, enquanto isso, se tenta avançar na tecnologia", defende Luís Mira Amaral, economista e presidente do banco BIC. E nos bancos? "A banca e os sectores mais inovadores até podem acomodar aumentos ligeiros de 1% ou 2%, mas os bancos deviam ser os primeiros a dar o exemplo. Depois desta crise financeira, passaram a ter uma responsabilidade social acrescida perante os outros sectores. Se optarem por aumentos que sejam marginais", acrescenta o banqueiro. A banca e os seguros empregam directamente mais de 94 mil pessoas.
Ao i, a Associação Portuguesa de Bancos (APB) refere que "não há nenhuma posição sobre essa matéria pois o assunto não começou ainda a ser discutido". O BES remeteu este assunto para a APB, limitando-se a referir que em 2009 não existiram promoções nem contratações de quadros directivos.
Os empresários não esquecem que 2009 foi marcado por um ganho extraordinário de poder de compra dos salários e que, por isso, é tempo de voltar a "apertar o cinto", como aconteceu na recessão de 1983/84, 1993/94 e 2002/03.
Inverno salarial Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, refere que "a inflação próxima do zero não dá motivo para haver grandes aumentos". "Quanto a contratações, não estou a ver que a conjuntura de 2010 seja boa o suficiente para que se preveja o aumento das taxas de ocupação". Em todo o caso, continua, "não iremos praticar algo de diferente do que for a posição da Confederação". O sector do turismo dará trabalho a mais de 507 mil pessoas em Portugal, segundo números da AEP.
"Nos sectores onde se prevejam difculdades, todos terão que apertar o cinto. 2010 vai ser um ano mais difícil do que 2009 para as empresas. Não espero boas notícias", diz Miguel Pais do Amaral, dono da editora Leya. Para o ex-presidente da Media Capital, "as empresas terão que continuar a cortar custos e uma consequência natural será menores aumentos salariais para os trabalhadores".
Para João Pereira Coutinho, presidente da SAG, uma importadora de automóveis, "é óbvio que não há qualquer margem para aumentos, mas o principal problema da economia é a dificuldade de acesso ao crédito pelas empresas".
António Nogueira Leite, economista e administrador do grupo Mello, também está pessimista. "Todos, da esquerda à direita, dos sindicatos aos patrões, estão de acordo que a economia tem de ser mais competitiva e de reduzir o endividamento, mas depois quando toca às soluções lá vem a conversa dos aumentos salariais. Acho que esses 1,5% propostos pelo governador do Banco de Portugal [Vítor Constâncio] e já referidos pelo governo são demais. O aumento nominal devia ser 0% tendo em conta os ganhos acumulados nas últimas décadas".
Francisco Murteira Nabo, presidente não-executivo da Galp, prefere falar "como cidadão e economista e não como chairman" porque ainda não começaram as negociações com os sindicatos, mas vai avisando que "terá que haver grande austeridade, no público e no privado". A Galp emprega 7 000 pessoas na Península Ibérica.
O retalho e a distribuição, onde estão hiper, supermercados e as muitas lojas de marca dos centros comerciais, acaba por parecer o sector mais generoso neste panorama desolador. António Rousseau, director-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), cujos membros dão emprego a mais de 81 mil pessoas, admite que "estamos a preparar uma proposta para levar aos sindicatos, logo não vou antecipar valores; porém, o valor apresentado pelo ministro [Vieira da Silva referiu como máximo 1,5%] parece-me razoável". "Mas qualquer correcção acima desse valor é extremamente perigosa", remata.
Jorge Coelho, presidente da construtora Mota-Engil, explica que "na minha empresa só se discutem aumentos em Março de 2010. Posso-lhe dizer o que fiz no ano passado: 2,5% para os vencimentos mais baixos, 1,5% para o escalão do meio e 0% para os mais elevados".
António Pires de Lima, que lidera a Unicer, dona da Super Bock, diz que "ainda não temos política salarial definida para 2010, mas hão-de ser com certeza variações muito modestas".
Melhor estão algumas empresas de tecnologia. Ricardo Parreira, presidente da PHC Software, garante que "vai ser algo em linha com o ano passado, entre 2% e 4%". "Vamos fazer aumentos de certeza, a dimensão é que ainda está a ser estudada. Aumentamos por mérito e não prevemos qualquer tipo de congelamento."
Com A. R. G., F. P. C. e S. O.
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