Filosofia
The School of Life. Um spa intelectual na era da técnica
por Bruno Faria Lopes, Publicado em 13 de Novembro de 2009
Abriu no mesmo dia em que faliu o banco Lehman Brothers. É uma escola de pensamento no coração de Londres
"Política é poder. Nada mais. Agora quero que pensem numa altura da vossa vida em tenham sentido poder usado contra vocês." Pouso o copo de tinto na omnipresente alcatifa britânica e faço o exercício mental, examinando a minha confortável existência burguesa com 15 desconhecidos, na maioria ingleses jovens e bem-sucedidos. Ali perto, numa noite fria de segunda-feira, outras 40 pessoas enchem um restaurante no coração de Londres para se entregarem a um ensaio diferente: um jantar de três pratos e vinho, somente dedicado à arte de conversar. Impressionante nos dias que correm, mas no dia anterior, às 11 da manhã de um domingo chuvoso, tinham sido 450 a encher um auditório para ouvir um sermão humorístico sobre "como amar o próprio ego". Todos estão insatisfeitos com a pobreza ideológica da era da técnica em que vivem - todos são discípulos da School of Life.
"A esperança, claro, é aumentar a base de estudantes e tentar mobilizar toda a gente na sociedade", explica ao i o filósofo Alain de Botton, mentor do projecto. "Estamos a começar pequenos, mas temos grandes ambições." A escola nasceu de um velho sonho de Botton - autor de "A Arte de Viajar" e de uma mão-cheia de sucessos, num novo género literário de auto-ajuda filosófica - admirador da academia criada por Epicuro na Grécia antiga, uma casa com jardim onde os estudantes (incluindo mulheres, uma inovação absoluta no século III a. C.) viviam numa comunidade frugal dedicada ao debate de ideias e aos prazeres da vida.
A School of Life - aconchegada numa pequena loja em Bloomsbury, bairro londrino de museus e bares - organiza pequenos-almoços e jantares dedicados à conversa, breves cursos sobre família ("como pode a família influenciar-nos?"), trabalho ("está secretamente frustrado pelo seu?"), amor ("qual o valor do tempo numa relação?") ou política ("porque temos as opiniões que temos?"). Conduz os alunos em viagens filosóficas pela auto-estrada M1 (a A1 inglesa) e faz sermões que celebram o regresso da retórica sobre temas como frugalidade, ego ou inveja. Tem um serviço de consultas médicas de biblioterapia, nas quais o paciente leva para casa uma prescrição de livros apropriados à sua maleita espiritual (o i fez terapia - ver texto ao lado). Na loja vende aforismos sobre a arte de viver ("Entre dois males escolho sempre aquele que não tentei antes"), livros (organizados em prateleiras do tipo "como tomar uma decisão", "a prateleira da sobrevivência") ou "pastilhas de mentol anti-establishment".
A atmosfera geral convida-nos a fazer o mesmo que alguns economistas pediram a José Sócrates a propósito das grandes obras públicas: "Parar para pensar." A lógica é de auto-ajuda com substância, inspirada por Platão e Epicuro em vez do "Segredo" de Ronda Byrne. "Os livros de auto-ajuda não são sempre maus. Aristóteles escreveu livros assim", aponta Botton. "Não há nada de mal com um livro que tenta mudar a nossa vida - o problema aparece, como sempre, se for um mau livro."
Anti-sistema mas para dar lucro De volta ao início deste texto - no arranque do curso de política todos pensam sobre quando foram vítimas de poder. As histórias começam a sair em série, a maioria sobre situações de emprego - o chefe que queria que se anulasse a viagem de lua-de-mel, o chefe que decide sem consultar, o despedimento arbitrário. A escola nasceu no mesmo dia em que o banco de investimento norte-americano Lehman Brothers faliu (15 de Setembro de 2008), precipitando a economia mundial na maior recessão das últimas seis décadas.
Em tempos de incerteza, ganância extrema e falta de fé nos líderes políticos, a escola tem esgotado a maioria dos seus eventos (a loja tem uma prateleira para aqueles que estão em crise geral, com chocolate de emergência e Séneca).
"Gosto de política, mas não sei como usar isso para mudar o estado das coisas", conta ao i Gavin, 29 anos, analista de uma multinacional de estudos de mercado. "Penso que fazer melhor pela sociedade é hoje incompatível com a política que temos", acusa.
A plateia naquela noite é representativa dos alunos da escola. "São na maioria pessoas entre os 30 e os 40 anos, há mais solteiros, e pagam os cursos por si mesmos", explica Caroline Brimmer, gestora da School of Life. Apesar de ser uma instituição filosófica e anti-sistema, foi feita para dar lucro (ver preços na caixa ao lado). "Também temos cada vez mais estrangeiros", sublinha Caroline. Entre os meus 15 companheiros de curso está uma argentina, uma polaca e um irlandês. "Estou numa fase da vida em que faz sentido reabrir a reflexão sobre valores não questionados ao longo de anos", diz Phillip Tierney, irlandês de 59 anos, empresário de design gráfico. "Vim aqui para ser questionado."
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