Os nossos organismos contêm provavelmente bisfenol A, ou BPA [da grafia inglesa bisphenol A]. Trata-se de um estrogénio sintético que as fábricas nos EUA usam hoje em dia para tudo, numa proporção de 3 kg por cada cidadão. Ou seja, uma quantidade imensa de estrogénio.
Mais de 92% dos norte-americanos têm BPA na urina. Os cientistas fizeram, embora não conclusivamente, a ligação da substância a vários males, do cancro da mama à obesidade e do défice de atenção às anomalias genitais de rapazes e raparigas.
Agora, ao que parece, está na nossa comida.
A revista "Consumer Reports" testou uma série de alimentos enlatados de marcas conhecidas com vista a fazer um relatório na sua edição de Dezembro, e encontrou BPA em quase todos. A revista afirma que apareceram níveis relativamente altos em alimentos como, por exemplo, a sopa de legumes da Progresso, a canja de galinha condensada da Campbell's e o feijão-verde cortado Blue Lake, da Del Monte.
A revista afirma ainda que encontrou BPA na versão líquida enlatada da papa para bebé Similac Advance e no sumo enlatado Juicy Juice, da Nestlé. O BPA presente nos alimentos tem origem provável no revestimento interno usado em muitas latas.
Devemos ficar alarmados? A indústria química acha que não. Steven Hentges, do American Chemistry Council, desvalorizou o teste, sublinhando que nos EUA as pessoas absorvem BPA em quantidades que a regulamentação governamental considerou seguras. Hentges também frisou que um novo estudo indica que a exposição ao BPA não causa anomalias na função reprodutora dos ratos.
Todavia, mais de 200 outros estudos mostraram existir uma ligação entre BPA, ainda que em pequenas doses, e alguns problemas de saúde.
"A grande maioria dos cientistas independentes, ou seja, os que não trabalham para a indústria, está preocupada com a exposição, ainda que em doses reduzidas, ao BPA em idades precoces", diz Janet Gray, professora da Universidade Vassar.
Este ano, a revista académica "Environmental Health Perspectives" verificou que as ratinhas grávidas expostas a BPA tinham crias com anomalias na vagina, no colo do útero e no útero. A revista "Reproductive Toxicology" verificou que a exposição ao BPA, ainda que em doses pequenas, provocava a puberdade precoce nas ratinhas. E há uma série de estudos em animais que associam a exposição pré-natal ao BPA ao cancro da mama e da próstata.
Embora a maioria dos estudos seja feita com animais, a revista oficial da American Medical Association indicou, o ano passado, que os seres humanos com níveis mais altos de BPA no sangue têm "uma maior predominância de doenças cardiovasculares, diabetes e anomalias nas enzimas hepáticas". Outro estudo publicado revelou que as mulheres com níveis mais altos de BPA no sangue tinham mais abortos espontâneos.
Os estudiosos notaram que está a aumentar o número de casos de rapazes com malformações dos órgãos genitais, de raparigas que entram na puberdade aos 6 ou 8 anos, de cancro da mama tanto em homens como em mulheres e de baixas contagens de esperma dos homens. A Endocrine Society, uma associação de endocrinologistas, declarou este ano que este tipo de anomalias pode dever-se ao aumento de disruptores endócrinos e pediu especificamente às autoridades reguladoras que reavaliem o BPA.
A FDA (autoridade americana para a segurança alimentar), que no passado confiava em larga medida nos estudos realizados pela indústria, está a estudar novamente a questão. Há projectos de lei pendentes no Congresso para proibir o BPA nos recipientes de comidas e bebidas.
"Quando há 92% da população exposta a uma substância química, não há margem para erro", diz Ted Schettler, da Science and Environmental Health Network. "Vamos discutir a validade de estudos individuais feitos em roedores ou vamos tomar medidas?"
Embora os dados não sejam conclusivos, justificam as precauções. Na minha família, estamos usar muito menos recipientes plásticos, que contêm BPA, para guardar comida ou para a preparar no microondas e agora bebo água de uma garrafa de metal. Ao fazer reportagens pelo mundo fora, habituei-me a não ter medo de senhores da guerra, bandidos e tarântulas. Mas isto das substâncias que funcionam como disruptores endócrinos apavora-me.
Jornalista
Exclusivo i/The New York Times




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