Fernando Pessoa

Exclusivo i Fernando Pessoa: o preço a pagar por comboios à tabela

por José Barreto, Publicado em 12 de Novembro de 2009   
Leia ou imprima ao lado mais um inédito de Pessoa: "Sem título"
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O presente escrito inédito de Fernando Pessoa, um texto dactilografado datável dos anos 20, infelizmente interrompido a meio de uma frase, é uma reflexão sobre as "conquistas materiais" da civilização, em confronto com os "fins mais altos" da vida humana, a que o autor chama a "criação de valores civilizacionais". Depois de expor a sua ideia geral, Pessoa aplica-a à avaliação dos progressos materiais que o fascismo trouxe à Itália, confrontando--os com o saldo negativo que esse país teve de suportar no plano das liberdades e dos tais "valores civilizacionais".

Um dos argumentos clássicos que os simpatizantes do fascismo italiano apresentavam a favor do regime era o de que os comboios tinham passado a andar à tabela, quase um milagre. Pessoa diz aqui uma coisa muito simples (parece-nos a nós, agora): não era necessário matar, torturar, enxovalhar ninguém para pôr os caminhos-de-ferro a funcionar bem, nem sequer para consolidar a moeda italiana, a lira, ou para assegurar a manutenção da ordem pública.

Apesar de Pessoa já ter sido considerado por historiadores como um esteta "pré-fascista" e até como um antecessor do regime autoritário português, a verdade é que, olhando para tudo o que publicou em vida, vasculhando até na inesgotável arca de inéditos que nos deixou, não se encontra uma linha apologética do fascismo ou de qualquer regime idêntico dos anos 20 e 30. "Conservador de estilo inglês", como ele próprio se definiu em 1935, "liberal dentro do conservantismo e absolutamente anti- -reaccionário", Pessoa prezava acima de tudo a liberdade do espírito e os direitos do indivíduo, plano em que nenhuma conciliação era possível com a prática dos Estados autoritários. Este texto é apenas um, entre vários que o espólio do escritor guarda, que nos persuadem disso. As fogueiras de livros e a "censura física" exercida sobre os jornais italianos vacinaram Pessoa, desde o aparecimento do fascismo, contra a sua possível atracção por dirigentes messiânicos que, afinal, destruíam a liberdade em lugar de a protegerem.

José Barreto, professor e investigador do ICS 


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