Demografia

Portugueses fogem cada vez mais ao casamento pela igreja

por Rosa Ramos, Publicado em 11 de Novembro de 2009   
Números do INE mostram que, em 2008, só 44,4% dos casais optaram pelo casamento católico
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Nunca se falou tanto de casamento em Portugal como nas últimas semanas. No entanto, os indicadores demográficos revelados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o tema é, cada vez mais, alheio aos portugueses.

Seguindo a tendência verificada nos últimos anos, em 2008 realizaram-se menos casamentos. Ao todo, registaram-se 43 228 matrimónios, menos 3 100 que no ano anterior. Mas o dado mais relevante a reter é outro. Se em 2007 a diferença entre casamentos celebrados pelo rito católico e os civis era pouco significativa (os civis ganhavam aos católicos por 971 celebrações), em 2008 a diferença aumentou. E muito. Realizaram-se 23 865 matrimónios pelo civil contra 19 201 católicos (uma diferença de 4 664).

"Nos últimos anos houve um decréscimo fulminante no número de casamentos. Se há oito anos se falava em 80% de casamentos pela Igreja, agora já estamos pouco acima dos 40%. Na História não há memória disto, esta mudança aconteceu demasiado rápido", adianta Mário Bandeira, demógrafo e professor no ISCTE.

Feitas as contas, só 44,4% dos portugueses optaram por casar pela Igreja. Cinco anos antes, a percentagem situava-se nos 59,6%.

É no norte do país que os portugueses continuam a preferir o ritual religioso. No ano passado, 54,7% ainda o fez (contra 57,9% em 2007). No centro, os noivos dividiram-se: 50% optou pelo rito católico. Os Açores e o Algarve são as regiões onde o casamento religioso tem menor peso (23,4% e 23%, respectivamente). "Terá certamente a ver com uma questão cultural", justifica o demógrafo. "A sul as pessoas sempre foram mais laicas e menos tradicionalistas. Certamente existem muitos casais a viver em união, mas que não celebram a união de facto, não contribuindo para as estatísticas", sugere.

No ano passado, do total das uniões celebradas, perto de um quarto dos portugueses celebrou segundos casamentos. E em 27,6% dos casos até já tinham filhos. Por outro lado, os casamentos com estrangeiros aumentaram para 13% (contra 12,3% em 2007).

O que também já não é novo é o aumento da idade média com que os portugueses se casam. E se, normalmente, os homens se comprometiam mais tarde do que as mulheres, a diferença de idades é hoje quase insignificante. Os homens casam-se, em média, aos 32,6 anos e as mulheres aos 30,1. "Há uns anos, a idade média de casamento das mulheres rondava os 22 ou 23 anos", recorda Mário Bandeira. Só que "questões de precariedade, instabilidade no emprego e o maior medo de estabelecer compromissos" podem explicar o aumento.

Menos imigrantes, mais legais Os dados do INE revelam também outras alterações no tecido social do país. O número de pedidos de residência de estrangeiros em Portugal aumentou. Contabilizaram-se, em 2008, mais de 72 mil. Em 2007 tinham sido pouco mais de 60 mil. Ainda assim, o número de imigrantes em Portugal baixou, entre 2007 e 2008: há menos 3 231 estrangeiros. "Mas a percentagem de filhos de mulheres estrangeiras tem aumentado", sublinha o demógrafo. Ou seja, os imigrantes são cada vez menos "mas mais necessários".

Os números do INE reflectem ainda um novo abrandamento no crescimento da população residente - registou-se um avanço efectivo de 0,09%. Em simultâneo, houve 104 594 nascimentos contra 102 492 em 2007, enquanto morreram 104 280 pessoas. A diferença entre nascimentos e mortes traduz-se, assim, num saldo de 314 indivíduos, uma taxa de crescimento natural praticamente nula.

"No crescimento natural, a diferença será muito pequena e no crescimento efectivo a diferença tem a ver com o abrandamento da imigração", explica Mário Bandeira. "O nosso crescimento está muito dependente da imigração." O demógrafo antevê um cenário pouco favorável: "Em 2009, é possível que pela primeira vez o número de nascimentos esteja abaixo dos 100 mil. Estamos numa curva descendente agravada pela crise, em que os casais não arriscam ter filhos."

A opinião é partilhada por outra especialista, Maria Filomena Mendes, professora da Universidade de Évora. "É essa a tendência futura, se os nascimentos não acompanharem o número cada vez maior de óbitos."

Outro indicador que não parece inverter-se é o envelhecimento da população. A 31 de Dezembro do ano passado, a população portuguesa era composta só por 15,3% de jovens com menos de 15 anos de idade.


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