Entrevista

"Portugal não tem mercado para uma indústria do cinema" - vídeo

por Vanda Marques, Publicado em 11 de Novembro de 2009   
"Os Sorrisos do Destino", o novo filme de Fernando Lopes, estreia-se hoje. Uma comédia autobiográfica sobre infidelidades virtuais
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O cartaz de "Belarmino" dá-nos as boas--vindas quando entramos na casa do realizador Fernando Lopes, em Lisboa. O pugilista, que podia ter sido campeão da Europa e foi o protagonista do primeiro filme do "realizador improvável", está pendurado mesmo à entrada do apartamento. Ao lado do cartaz vemos a cozinha que aparece no seu novo filme, "Os Sorrisos do Destino". É uma comédia doce e amarga, que faz uma análise mordaz da dependência dos telemóveis e daquilo a que Fernando Lopes baptizou com uma expressão quase sociológica: infidelidades electrónicas. Os tais amores virtuais, que surgiram na vida do realizador por acaso. Fernando Lopes não tem, nem nunca teve, telemóvel. Há 30 anos que guarda religiosamente o mesmo número de telefone fixo. A ideia para o filme? Aconteceu--lhe o mesmo que a Carlos, a personagem principal. Descobriu um sms no telemóvel da mulher com uma mensagem de "amor virtual". O filme, em jeito autobiográfico, tem Ana Padrão e Rui Morisson a fazer-nos lembrar a relação entre Fernando Lopes e a ex-mulher, Maria João Seixas. É um filme do seu tempo, como todos os que o realizador faz. Uma espécie de junção entre o documentário e a ficção, com boleros, drama e muita comédia pelo meio, como o realizador de 73 anos nos contou, enquanto fumava os seus inseparáveis cigarros: "São uma imagem de marca."

Como surgiu a ideia para o filme?

Por mero acaso atendi um telemóvel que não era meu. Como não sei mexer em telemóveis, carreguei no botão errado e apanhei uma mensagem... É o que está no filme.

Que tipo de mensagem?

Era uma mensagem dos tais amores virtuais... Quase todos os filmes são autobiográficos, mesmo os de ficção científica. Os meus são sociológicos, andam entre o documentário e a ficção. Este até é um bocado social, porque é sobre um casal que se desfaz a partir dos amores virtuais enviados por sms. São as infidelidades electrónicas.

Que quer dizer com isso?

São infidelidades que se passam electronicamente, mas não deixam de ser infidelidades. Pode não existir nada em concreto, mas esse flirt já é infidelidade. Portugal é um dos países que tem mais esse tipo de adultérios. Os sms até já podem ser usados como provas em tribunal. Nos Estados Unidos e em França existe até um mecanismo que me permite controlar o aparelho da minha ex-mulher e ela pode ter outro que controla o meu. Mas eu nem tenho telemóvel. Recuso-me.

Porquê?

Não preciso de telemóvel. O meu número fixo é o mesmo há 30 anos e as pessoas que me conhecem sabem a que horas estou em casa. As tecnologias em vez de facilitarem as relações prejudicam o "face to face". Para mim é muito mais importante um sorriso, um olhar. A primeira coisa que faço quando escolho actores é olhá-los nos olhos. Acho que os olhos reflectem o que nós somos. Por isso é que escolhi o Rui Morrison.

Identifica-se com a personagem que Rui Morrison interpreta, o Carlos?

Claro. A certa altura no meu filme digo que sou Manuel C, porque o outro (o amante) chama-se Manuel B. Portanto fui despromovido. O Rui Morrison tem uma simpatia natural que salta da expressão dele, dos gestos, das frases doces e amargas. Está muito bem neste filme.

As novas tecnologias acabaram com os "monogâmicos patológicos", como Carlos se define?

De certo modo sim. É uma tentação ter um telemóvel e não ligar a um outro senhor ou a uma senhora. A infidelidade electrónica é uma forma de perder a monogamia. Tenho um amigo namoradeiro que costuma dizer-me que sou um monogâmico patológico.

Muitas vezes essas infidelidades não passam de um jogo, nada se concretiza. Mesmo assim é prejudicial?

É um jogo gratuito, pior que a infidelidade real. É um jogo em que está tudo viciado, até a infidelidade.

Acha que estamos assim tão dependentes da tecnologia, como vemos no seu filme?

Vocês estão completamente domados pela tecnologia. Vocês é que não dão conta. Até no plano da crítica cinematográfica e literária a internet teve um efeito absolutamente devastador. Por exemplo, todos os filmes têm site com uma crítica e muitas vezes a tendência é seguir o que lá está, o fácil copy/paste.

Porque decidiu transformar a história numa comédia?

Não devia fazer um drama disto. Não era assim tão forte. É uma comédia doce e amarga. É uma série de equívocos, como diria Antonio Tabucchi, sem importância. Mas neste caso têm importância.

A música tem um papel essencial neste filme?

Há dois filmes: a história propriamente dita e os boleros, que são uma forma melodramática de cada personagem se exprimir. Os boleros são uma forma mais popular, quase telenovelesca. Sempre tive a mania dos boleros. Aliás, é a única música, juntamente com o jazz, que tento dançar.

Nos seus filmes fala muitas vezes de desamores. Ainda acredita no amor?

Acredito. Se formos capazes de voltar ao princípio, aquele início quando alguém se toma de amores por outra pessoa. É um princípio de sinceridade e ingenuidade. Mas com a idade que tenho já não tenho ilusões a esse respeito. Não sei se isso me vai acontecer. We never know...

Disse que era "um realizador improvável". Como se sente hoje, com quase 50 anos de carreira?

Agora já não sou improvável. Já não posso sair disto. Mas de facto, por razões de origem de classe, não estava destinado a ser realizador de cinema. Vivia numa pequena aldeia, ao pé de Alvaiázere e a minha família era quase toda analfabeta. A minha mãe teve de fugir comigo quando eu tinha 4 anos, porque o meu pai era muito violento. Aos 12 anos, quando já estava em Lisboa, comecei a trabalhar e aos fins-de- -semana ia sempre para as salas de cinema. Precisava daquele sonho.

Como vê o cinema português hoje?

Portugal não tem mercado para uma indústria de cinema. Quando oiço pessoas como o António Pedro (Vasconcelos) a dizer que somos subsídio-dependentes e que é preciso é uma indústria de cinema, não entendo. Primeiro, ele é o mais subsídio-dependente de todos. Não há um único filme do António Pedro que não tenha sido feito com subsídios da Gulbenkian ou do Instituto Português do Cinema. Quanto à indústria, quero que ele me explique como é que se faz uma indústria com 500 ecrãs. Não são salas, são ecrãs. Em São Paulo, por exemplo, há 2500 salas.

Qual é o caminho?

O cinema português teria muitas possibilidades, há 200 milhões de falantes de português, mas a maioria dos países é pobre. O único emergente é o Brasil, mas há um preconceito contra tudo o que é português. Por exemplo, o meu filme, que esteve na Mostra de São Paulo, passou legendado.

Se fizesse um filme sobre a sua vida, que música escolheria como banda sonora?

Não sei... Provavelmente voltava ao "Sabor a Mí", que aparece no "Belarmino" e neste filme. O bolero diz: "Passará mais de mil anos e muitos mais, mas tu levarás o sabor a mim." É a ideia de que não se morre completamente...

Veja o vídeo em www.ionline.pt


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