Entrevista

David Cronenberg. "Hollywood está muito nervosa e assustada" - vídeo

por Luís Leal Miranda, Publicado em 10 de Novembro de 2009   
O realizador de "A Mosca" está a trabalhar num novo filme produzido por Paulo Branco
David Cronenberg elogia o clima do Estoril num final de tarde que ameaça temporal. "Tem estado muito bom", assegura, enquanto aperta mais um botão da camisa. "Bom" e "mau" são palavras que ganham um sentido diferente quando utilizadas pelo realizador de "História de Violência", "Crash" ou "A Mosca". A julgar pela colecção de filmes apresentada numa retrospectiva durante o Estoril Film Festival, evento em que é também homenageado, Cronenberg não vê o mundo às cores - mas sim em várias camadas de cinzento. Como o céu ali para os lados da baía de Cascais.

Como interpreta homenagens como esta do Estoril Film Festival?

É muito satisfatório, dá-nos uma ideia do conjunto da nossa obra. Apercebemo-nos de que conseguimos algo durante todos estes anos, que evoluímos e nos tornámos melhores realizadores.

Costuma rever os filmes antigos?

Nunca. E não quero sentir que estas homenagens são uma antologia de fim de linha, como aqueles prémios de carreira... Ninguém os quer realmente receber. Quero que a minha carreira continue por muitos anos.

Tem um projecto agora com Paulo Branco, como se conheceram?

Tínhamo-nos encontrado noutro festival de cinema, talvez Cannes, e ele disse-me que era produtor de cinema e director deste festival. Perguntou-me se podia ir a Toronto, onde vivo, falar sobre um projecto que tinha: a adaptação ao cinema do livro "Cosmopolis", de Don DeLillo. Ao ler o livro percebi que daria um óptimo filme e comecei imediatamente a escrever o guião. Entretanto, eu e o Paulo chegámos a um acordo para fazer o filme. Agora vamos esperar para ver como corre. É cada vez mais difícil fazer filmes hoje em dia, sobretudo filmes complexos e inteligentes como este será.

Porque é mais difícil agora?

Por causa da economia, por um lado, e por causa do medo que os estúdios têm de fazer filmes que possam não ser muito populares, que sejam um fracasso. Muitas empresas independentes que estariam interessadas em financiar filmes mais modestos, que não teriam de ser um grande sucesso, desapareceram. Se queremos arranjar quem financie e distribua um filme pequeno na América não temos a quem recorrer.

Foi fácil escrever o guião de "Cosmopolis"?

Escrevi-o em seis dias, o que é muito rápido. Mas só foi possível porque os diálogos do livro são óptimos e a escrita é muito cinematográfica. Só tive de mudar algumas coisas porque um romance não é a mesma coisa que um filme.

Don Delilo deve ser um escritor muito difícil de adaptar ao cinema.

Um romance, se for realmente bom, e Delilo é um óptimo escritor, é muito diferente de um filme. Coisas como os monólogos ou os pensamentos de uma personagem não são reproduzíveis no cinema. Nos filmes tenta-se contornar isso com a voz off, mas aí estamos basicamente a ler o romance. Nunca resulta, é admitir que falhámos. Este livro tem muitos monólogos e as pessoas pensam que deve ser impossível de adaptar, mas sou um argumentista, é esse o meu trabalho.

Há livros impossíveis de adaptar?

Todos os romances são impossíveis de traduzir. Não se traduz, reinventa-se para o cinema. Temos de aceitar que é uma coisa nova que está a ser criada. Normalmente não podemos ser fiéis ao romance, literalmente. O primeiro romance que adaptei foi "The Dead Zone" do Stephen King. As pessoas achavam "isto é igual ao livro" mas não é. O que captámos no filme foi o tom, o ambiente e o feeling do livro. Isso replicámos. Mas o filme não tem nada a ver com o livro. De certa maneira é preciso trair o romance para nos mantermos fiéis ao original.

Existem rumores de que vai filmar um remake de "A Mosca".

Fiz um acordo com a 20th Century Fox que fez o filme original e o meu remake, em 1986. Vou escrever e produzir o que se poder chamar de remake de "A Mosca". Não sei se o vou realizar.

Porquê um remake?

Há uma razão, mas não posso dizer qual.

Quando se olha para a lista de filmes que estão a estrear-se em Hollywood vemos uma série de adaptações e remakes. Porque é que isso se repete tanto?

Porque Hollywood está nervosa e assustada. Como dizia o cartaz de "A Mosca", "tenha medo, tenha muito medo". Têm de facto medo: medo da novidade, medo do fracasso. Eles sentem que se estiverem a refazer algo que já teve sucesso estão a ter uma ligação directa com o sucesso - funciona um pouco como espetar agulhas num boneco de vudu. Não é garantia nenhuma de sucesso, mas vêem--se remakes das coisas mais estranhas como séries de TV que não eram nada de jeito e de repente são um filme de grande orçamento. Isto está tudo relacionado com medo. Hollywood tem medo do desconhecido e está à procura do familiar.

Há uma crise de criatividade em Hollywood?

Há sempre uma crise de criatividade em Hollywood. Mas não só. O cinema independente também se tem ressentido, ninguém está interessado em fazer filmes pequenos, todos querem grandes êxitos. Mas é cíclico, não é a primeira vez que acontece.

Fez filmes de terror e ficção científica. São géneros subvalorizados?

Há filmes brilhantes nesses géneros e outros muito maus. Não depende do género, não é uma limitação. Os filmes de gangsters foram muito malvistos durante muito tempo, eram baratos e não tinham chama. Depois Coppola fez "O Padrinho" e as pessoas passaram a olhar para estes filmes de outra maneira. Não acho que o género restrinja. O que interessa é se o filme é bom, se o cineasta é brilhante.

No entanto, os Óscares nunca vão para filmes de terror.

Nem para comédias, por exemplo. Os Óscares são uma comunidade pequena - a que eu pertenço, sou membro da academia e voto. Mas estes prémios não são para os melhores filmes, é quase um concurso de popularidade. Se queres ganhar um Óscar tens de passar três, quatro meses em campanha, como um político. É preciso conhecer toda a gente que vota, ir a Palm Springs onde estão os cineastas reformados, apertar-lhes as mãos e olhá-los nos olhos. Por isso, o Óscar não é a medida certa para ver se és ou não um bom cineasta.

Veja o vídeo nesta página.


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